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Por João Wainer – cineasta e fotógrafo – na Folha de São Paulo 

O que aconteceu no show de João Gomes em Mossoró?

Essa pergunta tomou conta da internet na última quinta-feira atiçando a curiosidade de todos até se transformar no assunto mais comentado do dia.

Uma busca rápida no Twitter foi suficiente para que as pessoas na internet, ainda passadas com as cenas vistas na cidade potiguar, respondessem a essa pergunta com outra: Imagina no Carnaval?

João Gomes é um jovem cantor de 19 anos, natural de Serrita, em Pernambuco, que no começo de 2020 postou alguns vídeos na internet mostrando suas composições de “Piseiro”, uma vertente do forró.

Cheio de carisma, talento e simpatia, suas músicas viralizaram especialmente no TikTok e ele se transformou rapidamente em um fenômeno das redes sociais. Hoje ele tem mais de 8 milhões de seguidores no Instagram e 36 milhões de plays no Spotify, números impressionantes para alguém de carreira tão curta.

CATARSE PÓS PANDEMIA 

Depois de quase dois anos de pandemia, com o afrouxamento das medidas restritivas e a liberação dos shows de música ao vivo, toda a tensão acumulada durante esse tempo de isolamento veio a tona nas últimas semanas e o show de Mossoró se transformou em um símbolo da retomada do rolê aleatório e sem limites.

As cenas que circularam na internet na última semana fizeram Woodstock parecer uma inocente matinê infantil.

Os relatos começam com o vídeo de um homem cantando emocionado uma “sofrência” no meio do público. Quando chega o refrão, ele rasga sua própria camiseta para delírio da galera. Perto dali um casal é filmado supostamente transando no meio da pista e uma mulher de topless sentada sobre os ombros de alguém canta feliz, cercada por celulares ávidos por capturar a cena.

 Na loja de conveniência, um homem de calças arriadas defeca enquanto dorme sentado em uma cadeira ao mesmo tempo em que outros clientes circulam pela loja.

Uma menina que andou 5 km entre o estacionamento e o local do show diz que foi atingida na mão por fogos de artifício lançados do palco e um rapaz reclama, entre muitos relatos de assaltos, que deixou um flanelinha tomando conta do carro e, ao chegar na festa, percebeu que o homem havia abandonado seu posto e estava enchendo a cara, e curtindo o show ao seu lado na beira do palco.

Um motorista de Uber filmou indignado seu carro todo sujo de fezes e um outro espectador fez um plano sequência de um punhado de homens bêbados desmaiados em cena que lembra o fim de uma guerra.

Apesar dos relatos e das imagens parecerem autênticas, não dá para ter certeza de que tudo aquilo aconteceu no mesmo dia ou se houve algum tipo de manipulação. O Twitter quase veio abaixo na última quinta comentando essas cenas, que teriam acontecido no dia 13 de novembro em uma festa chamada “Pzeiro”.

Independente de ser verdade ou mentira, as imagens e sua repercussão são um indicativo do tamanho da energia reprimida das pessoas após esses quase dois anos de pandemia.

HÁ PRECEDENTES NA HISTÓRIA 

A história nos mostra que tradicionalmente depois de períodos muito duros como guerras, epidemias ou grandes tragédias naturais, quando a paz e a normalidade voltam a reinar, as pessoas precisam extravasar.

Foi assim no lendário Carnaval de 1919, logo depois da Primeira Guerra Mundial e da gripe espanhola. Os anos 20 foram de pura efervescência social e cultural no mundo todo. No Brasil a semana de 22 representou esse sentimento. Esses momentos acabaram moldando os tempos que vieram depois, criando tendências e influenciando de forma positiva os costumes, a moda, a arte e a sociedade.

Quando o vírus finalmente deixar o Carnaval acontecer, seja em 2022 ou 2023, vai se desenhando uma catarse coletiva que certamente irá figurar nos livros de história, filmes e músicas que serão compostas no futuro.

O que aconteceu no show de João Gomes em Mossoró foi apenas um termômetro da loucura que vem por aí.

Imagina no Carnaval?

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