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John McCain (1936-2018)


Americanos costumam esperar um tempo mais longo para sepultar seus mortos. Sete dias é o que leva a organização das exéquias, comunicação aos amigos e convite para as cerimônias fúnebres.

Há dois anos, quando faleceu o Senador John McCain, correligionário republicano, representante do Arizona na alta câmara por 31 anos, a viúva não fez o convite ao Presidente Trump.

Justificou a ausência por querer manter a dignidade da cerimônia.

A maneira como o candidato derrotado reage agora ao veredicto das urnas, prova que a aparente desfeita da família enlutada era justificável.

O secular costume do derrotado preceder ao discurso do vitorioso, faz parte da grandeza da democracia americana.

A oportunidade do agradecimento aos eleitores, às equipes de campanha e aos voluntários que participaram da luta que foi vencida.

O reconhecimento da derrota também pode ser a oportunidade do candidato  mostrar sua real envergadura.

Sinaliza o espaço que vai ocupar nos livros de História.

Donald Trump, o outsider que conquistou o mais alto posto político em todo o mundo, na primeira eleição que disputou, aos 70 anos de idade, vitorioso na vida empresarial, já disse e repetiu, não está preparado para perder.

Os mais conhecidos membros do seu partido até que  tentaram facilitar o gesto que todos e o bom senso esperam.

O próprio opositor, obrigado a inverter a ordem da liturgia de encerramento da apuração dos votos,  não podia ter sido mais elegante com o perdedor.

O comportamento do eleitorado foi melhor que o esperado.

Depois da onda de violência que se alastrou pelo país nas manifestações contra o racismo e a violência policial, as cenas de revolta e destruição não se repetiram.

O povo foi às praças só  para demonstrar alegria e alívio. Com música, dança e congraçamento.

Em certa medida, as pessoas respeitaram as normas sanitárias de prevenção da pandemia. Uso de máscaras, distanciamento e comício drive tru.

A nação dividida ao meio, nas cores da bandeira, aceitou, pacífica, a verdade que saiu do complexo sistema eleitoral.

Na reflexão que se segue ao grande embate, a convicção da importância do princípio da alternância do poder e do equilíbrio das forças que se opõem no parlamento.

A divergência que parte de onde não devia, pode também vir a ser uma lição a ser aprendida na solidão do poder que se desfaz lentamente, até desaparecer. Para surgir, revigorado, em outras mãos, a partir de 20 de janeiro.

Sem qualquer prova de fraude eleitoral, a aceitação da derrota teria sido bem menos traumática se espelhada no concession speech, o discurso de reconhecimento, de 2008.

O herói da Guerra do Vietnã  onde foi prisioneiro por seis anos, com  sequelas físicas adquiridas em combate, durante sua campanha presidencial, repreendeu uma eleitora que acusava Barack Obama de ser árabe.

“-Não, senhora. Ele é um homem de família decente, um cidadão que eu tenho diferenças em questões fundamentais.”

Ao admitir a vitória do adversário,  ressaltou seu papel na eleição do primeiro afro-americano, presidente do país da igualdade e das oportunidades para todos.

“-Meu coração se enche de gratidão pela experiência e ao povo americano por me ter ouvido antes de decidir que o senador Obama e meu velho amigo, Joe Biden, deveriam ter a honra de nos liderar pelos próximos quatro anos”.

Trump não se livrará desta comparação com McCain.

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Comentários do Site

  1. Geraldo Batista de Araújo
    Responder

    Quer queiram quer não queiram, a democracia americana é exemplo para o mundo até para os franceses que fizeram a famosa revolução de 1897 que levou muitos para guilhotina o clusive os que a fizeram.

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