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Este Natal está diferente.

Disso, ninguém duvida.

O  distanciamento social, por mais que seja desrespeitado, é real e faz a festa mais  familiar de todas, simples e despojada. Sem perder o calor e o aconchego.

Mais penumbra de manjedoura que luzes e trenós em neve de capucho de algodão.

Os reclusos celebram a sobrevivência e a saudade dos ausentes, fazendo viagens imaginárias e repetindo outras mais reais.

A casa de incontáveis reformas, não guarda nenhuma recordação de uma única noite branca, em 38 anos.

Quantos arranjos no trabalho, troca de serviços e plantões para estar sempre presente na grande reunião da família?

Com pais, irmãs, filharada e aderentes. Da mulher. Da Paraíba, sim senhor.

Uma só, excepcional e rara exceção.

Falha na programação de itinerário, e a passagem de volta às vésperas do Ano Novo, obrigam o canto do jingle bells na capital do mundo.

Nova Iorque fica mais iluminada, alegre e receptiva enquanto espera a maior de todas as confraternizações.

Os dias que precedem a ceia larga não são os mesmos.

Agitação incomparável.

Vitrines tentadoras.

Povo sorridente.

Um pequeno detalhe, um broche, um enfeite na lapela, lembram a data que ninguém vai esquecer

O casal de turistas em hotel de mais de 1500 apartamentos, no centro de Manhattan, no olho do furação da Times Square, estava seguro que a noite seria maravilhosa.

Inesquecível.

Como foi, passadas tantas outras e quantas mais estórias pra contar.

O velho e mau hábito de não fazer reservas e um restaurante em cada esquina e entre elas, outros mais, faziam crer que o difícil seria escolher o mais adequado ao bolso e aos últimos traveller’s checks.

A chuva fina na noite fria, cinzenta, sem a neve que atrasou, foi a companheira na peregrinação por ruas desertas em busca de um oásis,  onde encontrar a última coca-cola  da selva de arranha-céus.

Uma luz bruxuleante e o  burburinho vindo de um sub-solo, daqueles cenários de filmes de gângsters, era a última esperança de salvação, refúgio e alívio.

No estreito bar superlotado, vazios, só os poucos lugares em  bancos suspensos, na quina do balcão alto.

Cheios, os copos e a cumplicidade da maître, cozinheira, garçonete e relações públicas.

Dela, a explicação que a cidade que Frank Sinatra nunca viu dormir, vira fantasma, na noite especial.

Fecha tudo. Todos em suas casas.

Menos aquela dúzia e meia  de imigrantes clandestinos.

Na saudade dos natais e das famílias que ficaram na Nicarágua, encontraram  um cantinho para acolher, com generosidade, os dois desalentados retirantes da seca nordestina.

Feliz (e também inesquecível) Natal!

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