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Viva – A Vida é uma Festa (2017)


Depois de uma longa, bem sucedida  e lucrativa temporada, com o repertório exaurido, o circo precisava seguir viagem.

Bye, bye New Cross.

O roteiro já anunciava um novo e respeitável público.

Como o cantador Gonzaga, guardando as recordações das terras onde passava, andando pelos sertões e dos amigos que ia deixando.

Pela boa acolhida e a dispensa de taxas e emolumentos, muito antes  da Lei Rouanet, a excelentíssima senhora prefeita recebeu a visita de cortesia e despedida da família de acrobatas, músicos, palhaços, atores, dançarinos e bilheteiros do Grande Circo Copacabana.

Em agradecimento pela hospitalidade, um presente inusitado e inesperado, aceito sem muito entusiasmo, como mandava a etiqueta aprendida na Escola Doméstica.

O cachorro mais feio que já foi visto nas ribeiras do Curimataú era preto retinto.

Sem pelugem alguma, a não ser uns poucos fios curtos na cocuruta e na ponta do rabo fino. De couro grosso, curtido ao sol.

Da artística família canina, diziam as ferinas línguas, era o único sem dotes artísticos.

Fazia papel coadjuvante, incapaz de pular por arcos em chamas e outras piruetas.

Em tempos de espetáculos politicamente incorretos, a cachorrada era chamada de africanos amestrados.

A origem ficou asim.

A ninguém foi dado o direito de escolher o nome.

A identidade estava no focinho e olhos tristes.

Chorão.

Virou cão de guarda e sombra da dona.

Sem lei modernosa, foi o primeiro da espécie a ter acesso livre ao prédio público mais imponente da cidade.

Sem crachá, foi assessor assíduo.

Como todo funcionário fantasma, não tinha birô mas o cantinho do gabinete estava conquistado.  Aos pés da chefa.

Manteve a mesma fidelidade na iniciativa privada.

Vigilante de loja. Deitado, preguiçoso, na entrada, ao lado do capacho.

Nas horas vagas, solto e sem coleira que nunca usou,  vagabundava, virava latas e namorava.

Deixou numerosa descendência que dispensava exames de DNA.

Somente depois da sua morte, seus segredos foram se revelando.

O pedigree veio do México.

De uma raça milenar, considerada sagrada pelos povos mexicas e maias.

Aos xoloitzcuintle eram atribuídos poderes de trazer  boa sorte e prosperidade.

Sua fidelidade mais que canina transcendia a vida terrena.

Quando os corpos morriam,  as almas tinham um longo caminho a percorrer no mundo subterrâneo, até chegar ao dos mortos, Mictlan.

Os defuntos não conseguiam fazer esta última viagem sozinhos.

A função de companheiro de todas as horas, absoluta, incluía sacrifícios.

Eram as almas dos xolos que guiavam as dos donos através do além, na apavorante travessia do rio da morte.

Ameaçada de extinção, a raça voltou a ser popular depois de representada pelo irresistível Dante, no filme dos Estúdios Disney, Viva – A Vida é uma Festa.

Quarenta anos depois, Chorão deixa o mundo dos mortos para alguns instantes de lembranças.

E saudade.

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Frida Kahlo (1907-1954) e seus xolos

654B28B8-3D6E-4D49-91B3-B96700B91D6ECachorro da raça xoloitzcuintle

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