
Fui convidado pelo Jornal de Fato para participar da 8ª Feira de Livros de Mossoró, que foi realizada na semana passada. Peguei uma van na companhia do pesquisador Murcio Procópio, especialista em Canudos e Luiz Gonzaga e da filósofa Márcia Tiburi. Cheguei lá na sexta-feira a tempo de assistir ao debate sobre poesia com a poeta cearense Nina Rizzi, o poeta José de Paiva Rebouças e o pesquisador de literatura Pedro Fernandes. Um público pequeno, mas atento e respeitoso ocupou o stand do jornal na feira para ouvir esse bate papo. Depois fomos todos para um restaurante comer alguma coias, conversar e beber.
Pausa para os comerciais:
O restaurante fica ao lado da Igrejá São Vicente e, por incrível que pareça, é um legítimo restaurante árabe em pleno semi-árido. O casal Ibrahim e Lúcia são dois sírios que estavam passeando pelo Brasil e foram parar em Mossoró. Gostaram do clima de deserto (tem tudo a ver) e decidiram se estabelecer ali. Eles servem deliciosos pratos típicos árabes, com algumas invenções, como a esfiha vegetariana. Se for a Mossoró não deixe de ir lá.
Prosseguindo. O livro mais recente de Nina Rizzi é intitulado Tambores pra N’Zinga e vou comentar aqui nos próximos dias. Chegando ao Kibesfiha (parece que é esse o nome do restaurante acima citado), na companhia da jornalista Larissa Gabrielle encontramos Tulio Ratto e Ana Cadengue numa mesa de violão e bate papo. Em outra mesa o diretor do jornal O Mossoroense e também poeta Cid Augusto. Então só podia acontecer uma coisa: rolou uma madrugada adentro conversando sobre literatura e outras cositas mas. Grande noite!
Passei o sábado na companhia do poeta Caio Cesar Muniz e Cid Augusto e juntos vimos a Seleção Brasileira perder o ouro olímpico. À noite foi a minha vez de participar de um bate papo com o jornalista Esdras Marchezan e do poeta Clauder Arcanjo sobre literatura e jornalismo. Novamente um público pequeno, respeitoso e atencioso. Dei uma passada pelos stands da feira e dei uma olhada nas palestras principais. Público bom, feira bem frequentada, mas notei a ausência quase acintosa de professores e estudantes universitários. A feira parecia pertencer mesmo às crianças, que lotaram os stands de literatura infantil. Passei no stand da Fundação José Augusto para promover meu livro Cidade dos Reis, que vendeu uma quantidade razoável para um autor local.
Era a noite da palestra do escritor cearense Lira Neto, autor de biografias de grande vendagem: O Inimigo do Rei, Editora Globo, 431 páginas, esgotado (tem por R$18,00 no site da Estante Virtual) cuja sinopse diz o seguinte: “O jornalista Lira Neto apresenta um José de Alencar irrequieto e polemista, envolvido até a alma com a invenção de uma literatura brasileira e com as lutas políticas do Império.”
Castello – A Marcha Para a Ditadura, Editora Contexto, 432 páginas, R$59,90. “Figura ambígua, descrita por uns como o mais intelectual dos militares e por outros como um truculento dissimulado, Castello Branco, o primeiro presidente do regime militar que governou o Brasil a partir de 1964, desempenhou papel tão relevante na história do país que já estava merecendo um retrato de corpo inteiro.”
Maysa – Só Numa Multidão de Amores, Globo, 432 páginas, R$32,00. “A cantora e compositora Maysa foi uma personalidade muito mais complexa do que sugere sua imagem pública. Intérprete de clássicos da música brasileira como ‘Ouça’ e ‘Meu mundo caiu’, a artista é tema dessa biografia escrita pelo jornalista Lira Neto a partir de pesquisas em arquivos familiares, de entrevistas com cerca de 200 pessoas (parentes, amigos, ex-namorados, ex-maridos, músicos, produtores) e, sobretudo, com base no acesso irrestrito ao diário íntimo de Maysa.”
Padre Cícero – Poder, Fé e Guerra no Sertão, Companhia das Letras, 544 páginas, R$52,50. “Nesta biografia, o autor se debruça sobre a vida de Cícero Romão Batista, o Padim Ciço dos romeiros e fiéis. Baseado em documentos, o autor reconta os noventa anos de vida do sacerdote, desde seu nascimento no sertão cearense até a consagração como líder popular. A obra pretende desfazer possíveis equívocos históricos e ajudar a enxergar o homem por trás do mito. O livro é dividido em duas partes, que apresentam diferentes momentos da vida de Cícero. Em ‘A Cruz’, o foco está na religião – a ordenação como padre, os supostos milagres, os primeiros conflitos com o bispado cearense, que chegaram ao Vaticano e culminaram em seu afastamento da Igreja. Em ‘A Espada’, aborda a política, carreira que Cícero abraçou depois de proibido de ordenar. Depois de lutar pela emancipação de Juazeiro, cidade da qual foi prefeito por quase vinte anos, Cícero elegeu-se vice-presidente do estado do Ceará. Chegou a apadrinhar um exército de jagunços, numa revolução armada que levou à derrubada do governo local; aproximou-se de Lampião, de quem buscava apoio para combater a Coluna Prestes; arquitetou um pacto entre os coronéis sertanejos, que ajudou a apaziguar a região e fez de Juazeiro o centro das aristocracias rurais do Ceará. Já perto do fim da vida foi eleito deputado federal, e ainda fez oposição a Getúlio Vargas.”
Getúlio (1882-1930) – Dos Anos de Formação à Conquista do Poder, volume um, 624 páginas, R$52,50, o primeiro de uma alentada trilogia planejada pelo autor. “Esta obra procura reconstituir a trajetória pessoal e política de Getúlio Dornelles Vargas. O autor buscou se debruçar sobre documentos para ajudar a decifrar a ‘esfinge Getúlio’, e mostrar como foi possível que convivessem no mesmo indivíduo o revolucionário, o ditador, o reformador social e o demagogo. Lira Neto pretendeu se servir de cartas pessoais e memorandos oficiais, de diários íntimos, autos judiciais, boletins de ocorrência, notícias de jornal, anúncios de publicidade, charges, hinos, marchinhas, livros de memórias, entrevistas, depoimento, entre outros”.
Depois da palestra de Lira Neto, nos juntamos ao jornalista e blogueiro Carlos Santos, Cid Augusto e Larissa Gabrielle e nos mandamos para aquela simpática praça de alimentação no centro de Mossoró e, mais uma vez vivemos uma madrugada deliciosa de muito papo e muita risada. Lira Neto é um bom contador de causos, além de excelente escritor.
Acho que feiras de livros são excelentes momentos para que autores de diferentes matizes e vivências entrem em contato entre si, troquem experiências e aprendam uns com os outros. Nem todo mundo vai vender livros na quantidade que Lira Neto vende. Ele é profissional. Mas muita gente pode aprender alguma coisa com ele. Isso é só um exemplo de como esses encontros são salutares.