Arquivos de ‘agosto de 2012’

Acertando contas com Pinochet

31 de agosto de 2012

Um dos mais importantes escritores da literatura latino-americana contemporânea, Antonio Skármeta retoma a relação entre pais e filhos explorada em Um Pai de Cinema, mas desta vez em uma época sombria. O Dia em que a Poesia Derrotou um Ditador, Editora Record,  224 páginas, R$32,90, é ambientado no fim da ditadura de Pinochet no Chile e, segundo o El País, “coloca em ordem a tragédia e a esperança daqueles tempos confusos”. Do escritor chileno, a Editora Record também lança o infantil Biscotinho Chinês.
De 28 de agosto a 1° setembro, o autor participa da 25ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul.

Prêmio Vivaleitura 2012

30 de agosto de 2012

A Fundação Biblioteca Nacional (FBN/Minc) acaba de lançar o edital de convocação para a edição 2012 do Prêmio Vivaleitura. Há pelo menos duas grandes novidades. A primeira é que a quantidade de prêmios em dinheiro subiu de três para 18 (antes, era só o primeiro em cada uma das três categorias – “Bibliotecas públicas, privadas e comunitárias”, “Escolas públicas e privadas” e “Sociedade”; a partir de agora, os seis primeiros em cada categoria passam a receber R$ 30 mil) como reconhecimento pelas ações desenvolvidas. Outra mudança é que, a partir de agora, a FBN, por intermédio do Proler, vinculado à Coordenação de Geral de Leitura da Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), está coordenando a ação. O prêmio, que em 2011 foi oficializado em decreto da presidenta Dilma Rousseff, integra oficialmente o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL). E continua tendo apoio do MEC, OEI (Organização dos Estados Ibero-americanos), Consed (Conselho de Secretários de Estado da Educação), Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação), Fundação Banco do Brasil e Fundação Santillana. As inscrições estão abertas até o final de setembro e poderão ser feitas via internet, pelo site www.premiovivaleitura.org.br, ou via postal, como carta registrada.

Uma filósofa no mundo da literatura

29 de agosto de 2012

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Doutora em Filosofia e autora de diversos trabalhos acadêmicos, Marcia Tiburi publica agora sua primeira obra de ficção. Magnólia, Bertrand Brasil, 256 páginas, R$35,00, romance que ela mesma define como uma “prosa estranha”, nasceu inspirado tanto por Kafka quanto por Wittgenstein. “No verão escrevo mais literatura; no inverno, mais filosofia”, revela. “Se você olhar para alguns dos meus textos de filosofia verá que a literatura está ali com força.”  Atualmente, Marcia divide seu tempo entre a escrita e outras ocupações: além de ser professora de pós-graduação, apresenta também programas de televisão. Conheci Marcia Tiburi em viagem recente à Feira de Livros de Mossoró. Ela é uma pessoa, séria inteligente e muito educada. Transcrevo aqui esta entrevista cedida pela editora.

Por que Magnólia? Qual o significado desse nome?
Magnólia é um nome de flor e um nome de mulher, mas é também uma palavra bonita. Marca o grande e o efêmero, o muito e o muito pouco. Era o nome adequado para esta pessoa que descrevo no livro. Não gosto de chamá-la personagem, pois, para mim, ela é mais que isso. Uma alegoria também é pouco, uma idéia também não diz o que ela é. Mas eu é que não vou saber o que ela é.

Como surgiu o romance? Fale um pouco do processo de criação.
Eu comecei a escrever literatura de modo mais sério em 1998. Atrasei em um ano o meu doutorado em filosofia por causa de outro livro que ainda estou escrevendo e não faz parte da trilogia que abre com Magnólia. Acho que vou concluí-lo logo, mas não sei. Magnólia eu comecei em 2001. Escrevi três versões, esta é a última. O texto surgiu por uma necessidade que eu mesma acho meio estranha: queria me livrar dos meus pensamentos e ela era a única pessoa que podia me ajudar. Então passei anos com ela, observando-a e deixando que me observasse. Mas ela era, sobretudo, algo que queria se transformar em letra.

Em que consiste a Trilogia Íntima, segundo a denominação que você deu a esse tríptico novelesco? Como os livros – o recém-lançado Magnólia e os vindouros A Mulher de Costas e O Manto – se interligam?
A trilogia poderia chamar-se do oco, da ausência, do vazio, do interno, do por-dentro, do imanente, do imo, do ínsito. Chamo-a assim porque acho que os três livros falam de um território: o íntimo. É um lugar em extinção. Só pode ser preservado pela solidão, mas a solidão está em baixa. Eu fundei um movimento para salvá-la. A Trilogia Íntima faz parte desse movimento. Os três livros falam de mulheres: a primeira está só e se enfrenta consigo mesma e toda a ausência que isso traz. Mas ela é cheia de linguagem e pensamento; o que lhe falta é a vida, falta-lhe que algo falte além de memória. Ela é a figura da razão, por isso o texto traz algo de filosófico. A segunda, a mulher de A Mulher de Costas, se enfrenta com a ausência da memória como a primeira, mas ela é uma figura do corpo. A personagem é uma princesa moura, a Teiniaguá da literatura gaúcha, tão bem contada por Simões Lopes Neto em Lendas do Sul. A história é quase a mesma da lenda, só que do ponto de vista dessa mulher perdida entre dois mundos. Em O Manto, o interno é figurado de um jeito muito simples: depois de 20 anos, um marido retorna à casa e a mulher se esconde no armário para contar o que sente. Ela então grava o livro inteiro. A gravação é como um manto de Penélope.

Moscas, besouros e mariposas são importantes personagens no livro, representados em ilustrações que você mesma desenhou. De onde vem essa sua fascinação por insetos?
Os insetos são lindos e inacreditáveis. A cada vez aparece um inseto novo; por isso, parecem imaginados e não um tipo existente na natureza. Cada um parece muito único e sem iguais. Invento meus insetos para aumentar a fauna mundial. Gosto, sobretudo, de coleópteros, mas também inventei lepidópteros. Mas a mulher de costas é outro animal…

Filósofa, professora, ficcionista e apresentadora de TV. Como você consegue conciliar ocupações tão diferentes?
Acho tudo divertido. Não consigo ficar sem fazer nada.

Sócrates e seu “conhece-te a ti mesmo” são citados logo no início de Magnólia. De que maneira se dá, em sua obra, a relação entre literatura e filosofia?
Eu só vejo uma diferença. Quando escrevo filosofia preciso pensar em níveis de comunicação. Na literatura, você deixa muito por conta da imaginação de quem vai ler. Gosto igualmente de escrever filosofia e literatura. Como numa tira de Moebius, é uma questão de movimento dentro da linguagem. Eu vivo em vários ângulos da onda.

Você já publicou diversos ensaios. Na sua opinião, Magnólia é uma ruptura radical com seus trabalhos anteriores ou, de alguma forma, pode ser facilmente encaixado em sua bibliografia?
Eu só não publiquei antes as minhas ficções, não me acho fazendo nada diferente. O meu tempo continua igual. No verão escrevo mais literatura; no inverno, mais filosofia. Se você olhar para alguns dos meus textos de filosofia verá que a literatura está ali com força.

Quando teve início a sua relação com as palavras?
Eu venho do desenho, foi a primeira coisa que fiz na vida. Acho que não perdi o sentido plástico das palavras, seu caráter de imagem. Em geral elas se grudam em mim quando as acho bonitas. Bonitas por serem estranhas, exóticas, secas, duras, maleáveis, tristes. Para mim elas estão vivas, como meus besouros.

Quais são as suas principais influências literárias? E quais as suas maiores fontes de inspiração fora da literatura?
Magnólia tem algo a ver com o Tractatus, de Wittgenstein, que não foi proposital.. É bem provável que os meus filósofos mais queridos estejam ali, de algum jeito: Kant, Nietzsche, Schopenhauer. Mas não pensei neles quando escrevi; se estão ali é por acaso. Mas Kafka, sim, este me inspira. Tem Kafka (Magnólia até cruza com duas imagens que tirei de Kafka), Raduan Nassar. Lavoura Arcaica é algo que me deixou perplexa, bem como o Avalovara, de Osman Lins, e o Memorial da Inquisição, de António Lobo Antunes. Mas Simões Lopes Neto é outra figura que não esqueço.

O que há de autobiográfico no livro? Escrever Magnólia foi um pouco como “vasculhar gavetas”?
Se o personagem não é você mesmo, é o seu outro. Não sei se é autobiográfico, acho mais que é algo que está sempre no espelho.

 

Cordel

24 de agosto de 2012

Está sendo realizada a Semana do Cordel na Potylivros do Praia Shopping. Amanhã tem show de Dudé Viana a partir das 21 horas. Ótima oportunidade para prestigiar esta importante manifestação da cultura popular.

Recado

23 de agosto de 2012

Prezado Carlos,

Gostei muito do seu livro. Parabéns. Faz uma retrospectiva sobre a cidade e o Estado onde vivemos. Pra mim foi muito importante rever o cenário político, até para entendermos melhor as oligarquias, como agem e se articulam em determinados momentos. É louvável o apoio de quem ajudou você a publicar, estou me referindo a Isaura Rosado. Nós cidadãos e contribuintes nativos e profissionais liberais temos que ser independentes, mas não sair por aí queimando as pessoas, você não acha? Tive uma experiência de trabalho com ela, na implantação da Faculdade Mater Christie em Mossoró. Acho boa a iniciativa do Agosto da Alegria e da feira do livro. E até entendo um pouco você ter sentido a ausência de professores na feira. Mossoró é assim. Ensinei lá no ano de 2007 e sentia essa ausência das pessoas. Quando for lá talvez irei no restaurante arábe.
Um abraço,
Graça Venâncio

Uma viagem sobre livros, amizade e poesia

22 de agosto de 2012

 

Fui convidado pelo Jornal de Fato para participar da 8ª Feira de Livros de Mossoró, que foi realizada na semana passada. Peguei uma van na companhia do pesquisador Murcio Procópio, especialista em Canudos e Luiz Gonzaga e da filósofa Márcia Tiburi. Cheguei lá na sexta-feira a tempo de assistir ao debate sobre poesia com a poeta cearense Nina Rizzi, o poeta José de Paiva Rebouças e o pesquisador de literatura Pedro Fernandes. Um público pequeno, mas atento e respeitoso ocupou o stand do jornal na feira para ouvir esse bate papo. Depois fomos todos para um restaurante comer alguma coias, conversar e beber.

Pausa para os comerciais:

O restaurante fica ao lado da Igrejá São Vicente e, por incrível que pareça, é um legítimo restaurante árabe em pleno semi-árido. O casal Ibrahim e Lúcia são dois sírios que estavam passeando pelo Brasil e foram parar em Mossoró. Gostaram do clima de deserto (tem tudo a ver) e decidiram se estabelecer ali. Eles servem deliciosos pratos típicos árabes, com algumas invenções, como a esfiha vegetariana. Se for a Mossoró não deixe de ir lá.

Prosseguindo. O livro mais recente de Nina Rizzi é intitulado Tambores pra N’Zinga e vou comentar aqui nos próximos dias. Chegando ao Kibesfiha (parece que é esse o nome do restaurante acima citado), na companhia da jornalista Larissa Gabrielle encontramos Tulio Ratto e Ana Cadengue numa mesa de violão e bate papo. Em outra mesa o diretor do jornal O Mossoroense e também poeta Cid Augusto. Então só podia acontecer uma coisa: rolou uma madrugada adentro conversando sobre literatura e outras cositas mas. Grande noite!

Passei o sábado na companhia do poeta Caio Cesar Muniz e Cid Augusto e juntos vimos a Seleção Brasileira perder o ouro olímpico. À noite foi a minha vez de participar de um bate papo com o jornalista Esdras Marchezan e do poeta Clauder Arcanjo sobre literatura e jornalismo. Novamente um público pequeno, respeitoso e atencioso. Dei uma passada pelos stands da feira e dei uma olhada nas palestras principais. Público bom, feira bem frequentada, mas notei a ausência quase acintosa de professores e estudantes universitários. A feira parecia pertencer mesmo às crianças, que lotaram os stands de literatura infantil. Passei no stand da Fundação José Augusto para promover meu livro Cidade dos Reis, que vendeu uma quantidade razoável para um autor local.

Era a noite da palestra do escritor cearense Lira Neto, autor de biografias de grande vendagem: O Inimigo do Rei, Editora Globo, 431 páginas, esgotado (tem por R$18,00 no site da Estante Virtual) cuja sinopse diz o seguinte: “O jornalista Lira Neto apresenta um José de Alencar irrequieto e polemista, envolvido até a alma com a invenção de uma literatura brasileira e com as lutas políticas do Império.”

Castello – A Marcha Para a Ditadura, Editora Contexto, 432 páginas, R$59,90. “Figura ambígua, descrita por uns como o mais intelectual dos militares e por outros como um truculento dissimulado, Castello Branco, o primeiro presidente do regime militar que governou o Brasil a partir de 1964, desempenhou papel tão relevante na história do país que já estava merecendo um retrato de corpo inteiro.”

Maysa – Só Numa Multidão de Amores, Globo, 432 páginas, R$32,00. “A cantora e compositora Maysa foi uma personalidade muito mais complexa do que sugere sua imagem pública. Intérprete de clássicos da música brasileira como ‘Ouça’ e ‘Meu mundo caiu’, a artista é tema dessa biografia escrita pelo jornalista Lira Neto a partir de pesquisas em arquivos familiares, de entrevistas com cerca de 200 pessoas (parentes, amigos, ex-namorados, ex-maridos, músicos, produtores) e, sobretudo, com base no acesso irrestrito ao diário íntimo de Maysa.”

Padre Cícero – Poder, Fé e Guerra no Sertão, Companhia das Letras, 544 páginas, R$52,50. “Nesta biografia, o autor se debruça sobre a vida de Cícero Romão Batista, o Padim Ciço dos romeiros e fiéis. Baseado em documentos, o autor reconta os noventa anos de vida do sacerdote, desde seu nascimento no sertão cearense até a consagração como líder popular. A obra pretende desfazer possíveis equívocos históricos e ajudar a enxergar o homem por trás do mito. O livro é dividido em duas partes, que apresentam diferentes momentos da vida de Cícero. Em ‘A Cruz’, o foco está na religião – a ordenação como padre, os supostos milagres, os primeiros conflitos com o bispado cearense, que chegaram ao Vaticano e culminaram em seu afastamento da Igreja. Em ‘A Espada’, aborda a política, carreira que Cícero abraçou depois de proibido de ordenar. Depois de lutar pela emancipação de Juazeiro, cidade da qual foi prefeito por quase vinte anos, Cícero elegeu-se vice-presidente do estado do Ceará. Chegou a apadrinhar um exército de jagunços, numa revolução armada que levou à derrubada do governo local; aproximou-se de Lampião, de quem buscava apoio para combater a Coluna Prestes; arquitetou um pacto entre os coronéis sertanejos, que ajudou a apaziguar a região e fez de Juazeiro o centro das aristocracias rurais do Ceará. Já perto do fim da vida foi eleito deputado federal, e ainda fez oposição a Getúlio Vargas.”

Getúlio (1882-1930) – Dos Anos de Formação à Conquista do Poder, volume um, 624 páginas, R$52,50, o primeiro de uma alentada trilogia planejada pelo autor. “Esta obra procura reconstituir a trajetória pessoal e política de Getúlio Dornelles Vargas. O autor buscou se debruçar sobre documentos para ajudar a decifrar a ‘esfinge Getúlio’, e mostrar como foi possível que convivessem no mesmo indivíduo o revolucionário, o ditador, o reformador social e o demagogo. Lira Neto pretendeu se servir de cartas pessoais e memorandos oficiais, de diários íntimos, autos judiciais, boletins de ocorrência, notícias de jornal, anúncios de publicidade, charges, hinos, marchinhas, livros de memórias, entrevistas, depoimento, entre outros”.

Depois da palestra de Lira Neto, nos juntamos ao jornalista e blogueiro Carlos Santos, Cid Augusto e Larissa Gabrielle e nos mandamos para aquela simpática praça de alimentação no centro de Mossoró e, mais uma vez vivemos uma madrugada deliciosa de muito papo e muita risada. Lira Neto é um bom contador de causos, além de excelente escritor.

Acho que feiras de livros são excelentes momentos para que autores de diferentes matizes e vivências entrem em contato entre si, troquem experiências e aprendam uns com os outros. Nem todo mundo vai vender livros na quantidade que Lira Neto vende. Ele é profissional. Mas muita gente pode aprender alguma coisa com ele. Isso é só um exemplo de como esses encontros são salutares.

 

Festa no Vale

17 de agosto de 2012

Será realizado no próximo dia 15 de setembro o IV ENCONTRO DE ARTE, MÚSICA E POESIA GOTO SECO, onde teremos como atrações a banda Boca da Mata (reggae), Jean Carlo-os grogs (rock), Sâmea Rafaela (MPb e Rock), Toptrio (chorinho), Serjão da Gaita (blues) e convidados, além da apresentação teatral de Crésio Torres e Ivo Maia, sarau poético e exposições de vários artistas plásticos. Tudo isso vai acontecer no Bar da Synara (Clube do Radioamador) em Ceará-Mirim, a partir das 17 horas, dia 15/09/12 (sábado).

Lançamento

16 de agosto de 2012

O professor norte-rio-grandense Carlos Alberto Jales Costa, radicado em João Pessoa, lançará seu livro de poesia,“Áspero Silêncio, nesta sexta-feira, dia 17 de agosto, às 10h30min, na Cooperativa Cultural Universitária, localizada no campus da UFRN. Carlos Alberto é irmão do então professor da UFRN, Jalles Costa, já falecido, e tem vários livros publicados de contos, pedagógicos e de poesia. Atualmente leciona em cursos de pós-graduação, nos Estados da Paraíba, Alagoas e Sergipe.

O romance da Guerra da Princesa

15 de agosto de 2012

 

 

Alguns escritores escrevem por prazer, outros por vaidade e outros até sonhando com a posteridade, mas a maioria esmagadora não vive de literatura. Aldo Lopes de Araújo deve estar inscrito no primeiro lote, dos que escrevem por prazer. Aqui vai uma breve notícia biográfica do autor: Ele nasceu na Paraíba, no município de Princesa Isabel e veio morar em Natal, é advogado e jornalista e é autor dos livros Lavoura de Olhares e Outros Contos (1988), Solidão, Nunca Mais (1996), As Estátuas de Sal (2000), Zé, a Velha e Outras Histórias (2007). Participou das coletâneas Presença do Conto Paraibano e O Autor na Escola. Integrou as antologias Contos Cruéis (2005) e Capitu Mandou Flores (2008). É um autor premiado. Além de outros prêmios, foi agraciado com a Bolsa Funarte de Criação Literária para pesquisa e conclusão do romance A Dançarina e o Coronel, livro ainda inédito. Este livro que vou comentar hoje, O Dia dos Cachorros, também venceu o Prêmio Câmara Cascudo de 2005, quando a Capitania das Artes (que atualmente não serve para absolutamente nada) ainda dava prêmios para escritores.

Pois bem, O Dia dos Cachorros, de Aldo Lopes de Araújo, Editora Bagaço, 205 páginas, sem preço definido, é sem sombra de dúvidas o livro de um escritor maduro e bastante ciente de sua arte. O que é que eu posso dizer desse livro? Qual o defeito que posso encontrar nele? Nenhum. Outro dia eu estava acompanhando pelos jornais a polêmica em torno da coletânea com os 20 melhores escritores do Brasil, da Revista Granta. Muita gente se magoou porque não foi convidada para fazer parte da coletânea. Ora, meu amigos, escritores bons existem às pencas por esse brasilsão afora. Uma coletânea com todos eles ocuparia uma quantidade absurda de páginas e Aldo Lopes certamente estaria entre os melhores. Mas o mais importante que eu quero lembrar é que todos os escritores da coletânea da Granta não cantam suas aldeias. Não existe um novo Jorge Amado. Essas pessoas cantam o mundo moderno e seu esfacelamento, sua falta de identidade, seu vazio absoluto.

O romance O Dia dos Cachorros conta a história da Guerra de Princesa, sua aldeia, que ele canta aqui com maestria e grande habilidade no trato com as palavras. Na contracapa do livro Ariano Suassuna diz: “No meu tempo de menino, ouvindo as histórias que meus familiares contavam sobre a Revolução de 30 e a Guerra de Princesa, cujas terríveis conseqüências ainda estávamos vivenciando, eu via o Coronel José Pereira Lima como um Rei invencível, e a cidade de Princesa como um Reino livre, austero, belo e solar; com a sua guarda de cavaleiros encourados e de bravura indômita sempre pronta a enfrentar desmandos do então presidente da província da Paraíba. Tudo aquilo que repercutia no meu sangue tinha de repercutir, como de fato repercutiu, na minha literatura. E é com grande alegria que vejo, agora, que ocorreu com Aldo Lopes algo semelhante ao que ocorreu comigo. Sendo ele neto de Manoel Lopes, o ‘Ronco Grosso’, Condestável do Reino de Princesa e homem de confiança do Coronel José Pereira, Aldo faz seu romance O Dia dos Cachorros uma grande homenagem a todos aqueles que se uniram para fazer, de Princesa, um baluarte contra o autoritarismo da capital, que queria impor aos líderes sertanejos, à força, uma visão de mundo inteiramente alheia à sua realidade – autoritarismo que foi decisivo, diga-se de passagem, para semear as discórdias que derramaram tanto sangue paraibano”.

Dito isso, eu me pergunto, e o que danado eu vou dizer do romance desse cabra paraibano-potiguar? Digo que certos romances pegam você na primeira frase, primeira página, nas primeiras cinco ou seis páginas. Depois disso, se você na caiu na lábia do escritor pode esquecer e largar o livro em um canto qualquer da casa, prometendo ler outro dia ou nunca mais. O livro de Aldo Lopes começa assim: “João Sem–Medo esperava do Coronel Barbaciano uma atitude mais dura, um chamamento às armas e não aquela resposta sem firmeza, como se a dentadura estivesse fora do encaixe da gengiva”. Eu li essa frase sentado no meio fio de uma calçada, enquanto esperava uma carona de minha mulher para ir pra casa após o trabalho. Confesso que fiquei ansioso para chegar logo e retomar aquela leitura que me arrebatou logo no primeiro capítulo. Demorei a terminar a leitura por causa de minhas obrigações que não são poucas e também por que jaz em minha cabeceira uma pilha enorme de livros a serem lidos, uns por obrigação outros por puro prazer.

Queria que esse livro de Aldo Lopes ficasse conhecido do resto do Brasil. Queria que o mundo conhecesse este pedaço de história da Paraíba. Mas o mundo prefere uma escritora que reescreve Harry Potter na internet. O mundo prefere um cara que escreve romances levemente pornôs para donas de casa. O Brasil prefere… Deixa pra lá. O ofício literário tem se tornado para mim algo inútil. Acredito que não seja o mesmo para Aldo Lopes e alguns amigos queridos. Eles acreditam no que fazem e se esforçam para divulgar seus escritos.

Aldo Lopes, seu livro é fantástico, bem escrito, ambientado nesse sertão mitológico, tão caro a Ariano Suassuna e meu amigo Raimundo Carrero. Estou feliz de tê-lo comigo e poder usufruir todas as lições que o seu fazer literário nos oferece ao percorrer essas páginas sertanejas. Tenho muito que aprender ainda. Portanto quero compartilhar com os poucos, mas fiéis leitores desta coluna o seguinte trecho do livro: “Houve um tempo nos Patos de Princeza em que só se falava na Velha, uma tal que existiu numa época em que o riacho, virgem de nome, ainda não se chamava Riacho-da-Velha. Nem a mata, a serra, a ponte, a gruta, nada até então tinha o seu nome. Embora tudo a ela pertencesse, a Velha naquele tempo era viva e nada havia sucedido do jeito e da forma como se sucedera. E ninguém que se metesse a besta de puxar o fio com que se tecera o foi, mesmo sendo, de forma a não se alterar os destinos que há de ser”.

É o tipo do texto que me inspira a continuar escrevendo, mesmo sabendo que é tudo tão inútil…

Feira

10 de agosto de 2012

Olhaí pessoal, neste sábado, às 19h, estarei na Feira do Livro em Mossoró, no stand do Jornal de Fato, para bater um papo sobre jornalismo e literatura com José Nicodemos, Esdras Marchezan e Claudio Arcanjo.