Um divertido tratado sobre a chatice sem cura

20 de julho de 2012 por toque

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O texto a seguir foi publicado na semana passada na edição impressa da TRIBUNA DO NORTE. Por razões técnicas sofreu um corte nos parágrafos finais. Decidi republicar aqui neste espaço por respeito aos meus leitores. É um livro muito divertido que merece mais esta chance de ser divulgado.

 

 

 

Certa vez, nos finais dos anos 80, quando o Sebo Vermelho ainda funcionava num segundo andar da Rua Princesa Isabel (em cima do falecido Gimmy Lanches), surgiu uma famigerada Lista dos Chatos. Dizem as más línguas potiguares que o texto que causou tanta comoção foi elaborado na calada da noite por Jarbas Martins e Abimael Silva, mas até hoje ninguém conseguiu provar isso. Teve gente que achou ter perdido o emprego por causa da lista, teve nego que quis se suicidar, outro comprou uma arma para atirar no primeiro que fosse comprovadamente o autor da lista, etc. O fato é que a lista foi um sucesso e rendeu até uma outra lista mais recente, elaborada pelo jornalista Rafael Duarte, do Novo Jornal, que fez muita gente ir dormir com um biquinho de choro, enquanto outros caíam na gargalhada.

Digo tudo isso para apresentar O Incrível Geneticista Chinês, de Angela Dutra de Menezes, Editora Record, 224 páginas, R$ 37,90.  Trata-se, com toda certeza de um dos mais bem humorados tratados sobre os chatos que eu tenho notícia. Vamos ver o que diz a apresentação do livro:

“Dona de um texto ágil, inspirado, crítico e marcado pelo humor, Angela Dutra de Menezes é uma das mais importantes autoras da literatura brasileira contemporânea. Com sucessos de venda e crítica não apenas no Brasil como também em Portugal e Espanha, retorna em mais uma divertida sátira sobre a obsessão atual com as aparências e com a popularidade. Escrita de forma divertida. ‘Eu escolhi a leveza’, diz. ‘Mesmo quando o assunto é dramático, opto por abordá-lo com bom humor’. A ditadura da aparência — hoje, quem não é magro e elegante é visto com estranheza — e a capacidade que algumas pessoas têm de não enxergar limites, ou seja, a gordura, que torna as pessoas feias, e a chatice, que as torna difíceis de conviver, são o mote de O Incrível Geneticista Chinês. Com a característica prosa afiada de Angela Dutra, o livro traz à tona a história mirabolante do doutor Yaun Wang, um cientista pouco ortodoxo que subverterá a ordem do mundo com suas pesquisas cromossômicas sobre esses dois males universais. As peripécias de Wang são contadas por Zhang Cheng, um chinês nascido nos Estados Unidos, um narrador ressentido, complexado, infeliz, fofoqueiro, racista, intrometido, metido a sabe tudo e politicamente incorreto. Ou seja… cobaia perfeita para a cura proposta pelo cientista. mas o problema é que o cientista se recusa a participar do movimento que pretende curar os chatos à revelia deles. ‘Apontar que o limite de qualquer ciência, qualquer atividade humana, é o respeito à dignidade e à liberdade do homem é um dos fios condutores do meu livro’, conta. Nascido de uma reportagem que a autora leu sobre o papel das ciências biológicas na reconstrução do futuro, aponta para a possibilidade de uma sociedade distópica. Mas aposta mesmo é no bom humor. Angela Dutra acredita que os avanços no campo serão, basicamente, benéficos. ‘Acho que a biogenética mudará a humanidade para melhor, muito melhor. Tudo que a ciência vai nos oferecer, ou já oferece, só trará benefícios à humanidade’, finaliza a autora”.

É mais ou menos isso aí, mas é muito mais. O livro é uma ficção científica debochada, descarada, deliciosa e extremamente divertida. O leitor vai perceber isso quando chegar à tabela que define os chatos. Começa assim: “Fica estabelecido, a priori, que a incapacidade de alguém se movimentar apenas no próprio espaço físico, existencial e emocional é a principal característica das variadas espécies de chatos. As subcaracterizações servem exclusivamente para facilitar estudos. Espaçosos e sem limites: Síndromes: fofoqueiros, faladores, faladores sem limites, faladores-repetitivos, inconvenientes, palpiteiros, profetas, caga-regras, sabe-tudo, doutrinadores, agressivos, mentirosos-compulsivos, terroristas existenciais, hienas-gargalhantes, donos da verdade, intrometidos, contestadores, implicantes.

Vampiros emocionais: síndromes: radicais políticos, religiosos e de todas as inclinações filosóficas, profetas do fim do mundo, alternativos (qualquer variante), bonzinhos-crônicos, chantagistas emocionais, ecochatos, ignorantes opcionais, burros convictos, vítimas profissionais, hipocondríacos, bêbados deprimidos, bêbados agitados, bêbados, surdos opcionais, vaporizadores de perdigotos, sonsos, mal-humorados full time, rancorosos.

Chatos virtuais: síndromes: remetentes de spam, remetentes de correntes religiosas, remetentes de correntes religiosas com ameaças, distribuidores de vírus, hackers, remetentes de PPS com fotos do Alasca/outras regiões remotas, remetentes de mensagens de autoajuda.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada: síndromes: politicamente corretos, pretensiosos, avarentos (pobres), egocêntricos, omissos, exibidos, mal-amados (as), vaidosos/orgulhosos ilimitados, marqueteiros de si próprios”.

Ela deixa no final, em aberto, a possibilidade de mais tipos de chatos. Mas se você já está roendo as unhas porque se enquadrou em algum tipo aí, não ligue amigo velho ou amiga velha. Esse negócio de chato é muito subjetivo. O que é chato para alguns pode ser extremamente interessante para outros, ora essa. O bom mesmo é cair na risada, inclusive de si mesmo.

Eu conheço outro livro dessa autora e gostei muito. O Português que nos Pariu, Editora Record, 208 páginas, R$ 37,90. Veja aí a apresentação: “Best seller no Brasil e em Portugal, onde vendeu mais de 30 mil exemplares, O Português que nos Pariu ganha uma nova edição pela Record, com textos inéditos e cuidadosa revisão da autora. Nesta divertida releitura de fatos e personagens
da história portuguesa, Angela Dutra de Menezes leva o leitor às gargalhadas ao revelar, por exemplo, que dom Henrique, o Navegador, não sabia navegar, ou que dom Sebastião não passaria em nenhum exame psicotécnico”.

Como você vê, ela é desse naipe de pessoas que encontram o riso nos assuntos aparentemente mais áridos. Além do mais, ela escreve com um estilo limpo e despretensioso, gostoso de ler mesmo, coisa rara neste momento de tanta literatice, tanta coisa chata sendo escrita no Brasil. O tipo do livro que leio com gosto e recomendo a todos.

Pois bem, já chegando ao final do livro que recomendei antes, o dos chatos, encontrei uma frase que quero repetir aqui: “Chatos são como baratas, nada os destruirá”. Ofereço esta frase a certos grupos de pessoas que se enquadram em boa parte daquelas síndromes descritas lá em cima. Mas chatos nem sempre andam em bandos, eles geralmente preferem andar sozinhos e quando eles pega uma vítima são piores do que os Pthirus púbis, os famosos piolhos que se enredam nos pentelhos de cidadãos descuidados e frequentadores de locais suspeitos. Eu acrescentaria sem titubear à lista dos chatos elaborados por Angela Dutra, um certo tipo de literato, frequentador de saraus, mesas de bar, salas de aulas de instituições universitárias, cafés de livrarias de shopping, redes sociais, e por aí vai. Mas estaria sendo cruel e desonesto com meus pares.

No mais, é seguir na batucada da vida. Porque o pior chato mesmo é o burocrata que fez ou deixou fazerem o que fizeram com o calçadão de minha Ponta Negra (as fotos publicadas aqui na velha TRIBUNA DO NORTE de guerra na semana passada são de cortar coração). Chatos são os turistas que tomaram de assalto aquele pedaço de Natal em busca de sexo fácil e tirou de nós a bela visão do Morro do Careca. Chatas são as pessoas que não sabem escolher bem os candidatos que vão cuidar de sua cidade ou representá-las na Câmara Municipal. Chatos são aqueles vereadores boçais que não representam ninguém além de seus próprios interesses.

Meus queridos leitores já notaram que fiquei impregnado de tanta chatice e estou ficando mais chato do que sou, aqui neste pequeno pedaço de jornal. Eu poderia encerrar esse texto cantarolando o imenso sucesso de Michel Teló ou o tema musical de Neymar, mas aí nem eu mesmo iria aguentar tanta chatice. Então desejo a vocês uma boa leitura dos livros de Angela Dutra e faço votos para que você não caia nunca numa daquelas crateras da praia de Ponta Negra.

 

 

 

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