A tipicidade do vinho

3 de janeiro de 2021 por Elmano Marques

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A FRUVITIS

Imagine o tradicional carnaval de rua de Salvador, porém, feito em Londres. Com abadás, imensos trios elétricos trazidos da Bahia e músicos arrastando o público com o legítimo axé baiano. O evento pode ser muito animado, mas, admita-se, embora realizado no Reino Unido, não possui alma inglesa. É a reprodução de uma manifestação cultural legítima de outro local. É “típica” da Bahia. A expressão “tipicidade”, segundo o Dicionário Houaiss, significa algo característico, que distingue um lugar, pessoa ou coisa. É muito importante no mundo do vinho e possui uma relação bem íntima com a palavra “terroir”. O Guia Larousse define “terroir” como “relação mais íntima entre o solo e o microclima particular, que concebe o nascimento de um tipo de uva, que expressa livremente sua qualidade, tipicidade e identidade em um grande vinho”. A respeito disso, o filósofo e escritor inglês Roger Scruton disse: “Para mim, uma taça de vinho expressa o lugar, o modo de vida e a cultura que o produziu: é um registro do espírito humano, em sua manifestação mais local, como uma forma de apego à comunidade e ao solo”. Jonathan Nossiter, no livro Gosto e Poder, diz algo parecido: “os vinhos expressam o mais profundo senso de lugar… Podem ser uma expressão cultural tão vigorosa quanto a literatura, a pintura, o cinema, a música e o futebol”. Isso indica, claro, que nem todo vinho feito em certo lugar exprime tipicidade. Vinhos feitos com o objetivo de apenas agradar o gosto do consumidor “universal” não possuem tipicidade alguma. A tipicidade envolve características que indicam determinado vinho ser originário de uma região. São adquiridas durante o tempo e são um dos pontos-chaves que indicam a qualidade de um vinho para a crítica especializada. Identificar a tipicidade não é um papel técnico de enófilos e sim de especialistas. Ainda assim, é importante todo enófilo ter em mente que não basta o vinho ser agradável ao olfato e paladar; deve expressar os fatores culturais e enológicos de onde foi feito. Do contrário, será apenas uma imitação de algo que é típico de outro local ou, pior ainda, será simplesmente genérico, sem identidade alguma, sem valor cultural nenhum.

Por: Marcos Adair

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