Demna Gvasalia revela espírito do tempo da família Gucci

POR AUGUSTO BEZERRIL
@augustobezerril
A semana começou com o mundo sacudido por movimentos das placas tectônicas da geopolítica do estilo. A toda poderosa Gucci apontou artilharia no campo de batalha das estreias de diretores criativos que devem gerar análises de especialistas nas semanas de moda e meses seguintes ao apresentar as primeiras criações de Demna Gvasalia. Queridinho da imprensa internacional de moda, o estilista – nascido na Geórgia e ex-aluno da escola de moda Antuérpia, na Bélgica – estreou superbem ao ironizar o baú controverso da grife numa coleção chamada de “La Famiglia“. Quem assistiu a filme e documentário, sabe bem do arsenal de ideias em torno da família Gucci.

As imagens assinadas pela fotógrafa Catherine Opie apresentam uma edição limitada, disponível em poucas lojas da marca pelo mundo e por tempo igualmente limitado. A imprensa e pensadores de moda logo saudaram a versão da Gucci a partir da visão “disruptiva” de Demna. Os artigos lembram da fase do moço na Vetêments e a passagem tida como “revolucionária” na Balenciaga. O conglomerado de luxo Kering acredita na capacidade de dialogo do estilista com a indústria cultural como forma de recuperar poder influência e dinheiro nos cofres da marca italiana. Na trajetória influente, o estilista foi alvo de ira pelo mundo ao criar uma campanha publicitária na Balenciaga, acusada de expor crianças. Parece que o assunto morreu, quiçá, fora fake news. O que não é fake? A coleção apresentada, ontem, mostra uma sinergia perfeita entre o universo do Demna e o arquivo de estilo do grupo Gucci. Os vestidos estampados os casacos felpudos e a estética old fashioned da marca fazem acelerar o coração de fashionistas ao irônico das proposições de Demna.

Aclamado pelo poder de reter espírito do tempo, Demna inicia uma história que deve marcar o futuro da marca atualizando as clássicas bags, scarpins com tiras no tornozelos, deixando parte do pé visível, em looks sexy, porém, austeros. Os rapazes causam por vestir pouca roupa, como mostra o “ragazzo” da foto acima. Em um mundo em guerra cultural, a Gucci – ao que parece – acertou ao riscar no chão os limites do que deve ser uma nova Era. Moral do epílogo dessa história: tente resistir ao desejo do que não possui. Na indústria da moda e cultura não se tem como hipocrisia amar o plural da exclusividade própria do luxo. Há sempre uma cobra em qualquer paraíso. Acertou quem escreveu Zeitgeist.
Fotos Catherine Opie
