11 de julho de 2026
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Dutinho, o menino estrábico de cabeça torta

22 de dezembro, recebi uma mensagem de Dutinho – um amigo de infância que desapareceu quando era muito jovem. Ele me conta, finalmente, sobre uma noite de Natal quando ele fugiu para uma ponte sobre um riacho no caminho lá para as bandas do Rio Piquirí, na altura do Alecrim, em Pedro Velho, a fim de tentar identificar, entre as mais 129 milhões de estrelas existentes no master céu a passagem daquela que seria a tal aquela estrela-guia dos Reis Magos. Ao olhar o espelho d`agua, Dutinho percebeu ter a cabeça levemente torta para o lado esquerdo e, quando pendia mais para o centro, o olho subia em movimento oblíquo para cima. De posse de seguro de saúde da Islândia, em meio a vulcões e geleiras, descobriu ser estrábico. E já no leito da manjedoura dos cuidados pueris teve a ideia de, para não ver dois, arrumar um ângulo cabaz de enxergar tal como se convenciona chamar de certo. O bebê Dutinho era todo solução. Não tive tempo de perguntar como se escreve ou pronuncia solução em tão remota pátria. Posto que Dutinho disse, também, já muito jovem descobriu existir mais 129 milhões de motivos para decifrar versões sobre a mesma coisa. A curiosidade levou-o a saber que tal estrela andarilha seria, segundo estudiosos, um cometa. A estrela do nascimento de Jesus, sim, seria um corpo celeste, por ser coisa do céu, estava escrito nos livros dos astrônomos por outro nome correspondente a uma estrela em movimento: cometa. Repita 129 milhões de vezes, em português. Caso queira, traduza para seu idioma preferido.

Dutinho contou-me sobre outra mensagem absurda do céu e da ciência. Desde menino, ele desmaia. Já quebrou cara, dente e até quase o nariz. Uma noite, quando um tio avôestava na UTI, o jovem Dutinho sonhou está no hospital. Ao se aproximar do tio paciente terminal observou sair ponta do dedo indicador um fecho de luz, tal como se passa no famoso filme de Hollywood. Ao acordar na madrugada, sentiu como se tivesse um apagar de um clarão no quarto. Dutinho era quase um prisioneiro em seu quarto, que ficava no pavimento superior de uma casa modernista. Tal como um prisioneiro dos contos de fadas, ver por outra surgiam desconhecidos para dividir o espaço, de gente iluminadas a seres mais tenebrosos. Mesmo assim, pareceu-lhe assustador o súbito clarão. Se ele contasse tal sensação, questionou-se: quem iria acreditar? Eu, que me tornei jornalista, disse que iria eu duvidaria, por dever de profissão. Dutinho disse para eu deixar de lado o fundamento da profissão. “Jornalismo é uma ficção, um hobby caro. Jornalismo é uma rara estrela andarilha, busque uma outra entre as 139 trilhões postas em ilusão ótica“, aconselhou-me, meu amigo estrábico da cabeça torta. Privilegiado que fora, meu amigo descia dois lances de rampa, passando por um quarto onde seria a biblioteca, até alcançar o lavabo e a sala de jantar onde a mesa, ficava abaixo de um lustre de cristal. Para não ser de todo normatizado por regras de acessibilidade, o arquiteto decidiu por dois degraus no final da rampa. Parado nesse exato ponto, Dutinho ouviu uma vizinha, chamada por Dona Odete, contar à mãe dele que extraterrestres teriam tentado um contato com aquele ser estrábico, convertido em cabeça torta. Creiam, isso se passou, mesmo que ETs não existam. Não sei bem se foi naquele dia, mas consta na biografia de Dutinho vários apagar de desmaios. Num desses sumir da consciência, o menino saiu da vida das pessoas por cá. Mesmo na juventude, meu amigo nutria o desejo de ser um aposentado a escrever roteiros de filmes e, também, livros vivendo na região central da Espanha. Sei que lá esteve, tenho cartão postal enviado por ele de vários lugares próximos ao Mediterrâneo. Viveu dias também numa floresta da Áustria. Até, talvez por ter quase morrido nas água quentes do Atlântico, ter se embrenhado no Pacífico.

Para muita gente, Dutinho morreu. Alguns amigos em comum nem fazem ideia de como seria aquele menino e adolescente sendo adulto. Dutinho sempre divertiu-se com primos e primas como se irmãos fossem. Diz-se uma pessoa da paz, mas chamado a uma situação de conflito, ele nunca se furtou em trazer a razão. Nesses instantes, ele costuma lembrar que uma caixa de dinamite nasceu para explodir, não existe outro destino. O fato de qundo bebê foi levado ao adulto ato de certificar o que estava vendo fez, talvez, descobrir que não precisa buscar 129 milhões de maneiras de mostrar ao mundo o resultado final do esquentar da pólvora. “Veja, Augusto, por que mesmo você iria puxar para si a missão da acender o fogo?“. A resposta encerra o diálogo. Uma estrela pode ser chamada de cometa e continuar a brilhar no céu. O céu, tal qual como vimos, é também uma ilusão ótica. Se eu fosse subtrair 365 voltas do sol, o dia de 22 de dezembro do ano passado eu não estava onde agora estou. Já Dutinho estava no mesmo lugar. Acredita? Ele estava vendo contemplando estrelas tendo os pés no chão em uma terra minada, por assim dizer, por vulcões e gelo. Nem eu sei, mesmo sendo o amigo mais próximo e único correspondente nos trópicos, como ele chegou lá. O porquê do sumido, 129 milhões terão a capacidade de versões de uma ideia.

Feliz Natal, Dutinho. Se a vida nos permitir, espero te encontrar em Cárceres numa Páscoa na Espanha.

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