10 de julho de 2026
ABZ PLATAFORMA

EUZINHO/ Allan de Botton expõe chifre filosofal

POR AUGUSTO BEZERRIL

@augustobezerril

augustobezerril@tribunadonorte.com.br

Nada é muito certo para se ter certeza. Quase nunca digo que vou fazer uma viagem. Digo que vou, ou mais precisamente, digo vim quando cheguei ao destino. Hoje imaginei iniciar a rotina de alongamento na Selfit Academia e retomar os movimentos de Pilates de solo, segundo as aulas de Carla Gameiro. Botei Nana Caymmi para cantar. Fui fazer café para mim, mesmo. E ao pensar botar um tênis, minha mente espreguiçou-se na releitura de Ensaios de Amor, livro escrito por Alain de Botton. Tenho o estranho hábito de ouvir as mesmas músicas, rever filmes e reler livros. Por vezes, alguns acordes ou frases me tocam como se nunca tivesse ouvido ou lido. Ao amassar meu pocket book, descobri o capítulo dedicado à sedução e, de quebra, uma máxima do jogo do conquistador: o disfarce de objetivo e (des)entendimento, base da literatura libertina.

O personagem libertino mente, disfarça, até ser premiado com o amor da presa. Em Ensaios de Amor, o filósofo Alain de Botton escreveu: “Para quem ama a certeza, a sedução não é território que se deva entrar“. O texto trata do descobrir e encobrir próprio do primeiro “dated“. Nem sei há quanto tempo tenho o livro. Porém, para minha decepção e desapontamento, fui informado pela Inteligência artificial sobre autoria das traçadas linhas sobre a sedução. Consta, segundo a IA, na obra Tudo Rio, escrita por Carla Madeira. Como pode, meu filósofo-escritor? Fica uma lição: se quiser amar, não pesquise. Ou ame, assim, sem a prevalência da autenticidade (ao menos das frases).

Quarenta e cinco minutos desde quando comecei a escrever, percebi ter mudado a estrutura de como havia imaginado o texto. Se fosse um jogo de vôlei, não sei mais se estou no meio ou na rede. Sigo desprovido de intenção. Não sei se isso é ou não próprio do libertino. A condessa de Merteuil, em Ligações Perigosas, repreende o Marquês de Valmont por escrever com rigor sobre o estado de desatino frente à pessoa amada. Se compreendi, devo fingir não ter compreendido. O romance libertino é cria da popularização da leitura, a impressão em papel serviu para dar tinta às máscaras da decaída aristocracia francesa. Hoje, IA faz uso da sátira, há quem perca o juízos. Vamos tomar como o meta o poder da conquista. Amor, sedução.

Se fosse analisar, o parágrafo anterior sob a ótica da sedução, eu me daria zero. É muito, não sou, poser. A minha avaliação dá conta da evidente vontade de demostrar saber filósofico e, portanto, intelectual. Espreguicei. O Euzinho leitor de livro sente o pulsar do desejo de nada fazer, nada pensar e, por consequência, nada provar. Desde o nascimento, penso eu, fomos convidados a exercitar a musculatura do ego numa sem fim olimpíada (in) consciente. Talvez por isso, justo hoje, quando o árbitro recursal (inteligência artificial) acusa o doping autoral, o chifre filosofal, de Alain de Botton, confio a vocês o poder do VAR. Ah, vá amar!

Foto Augusto Bezerril

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