Como Titina Medeiros conciliou moda e propósito

POR AUGUSTO BEZERRIL
@augustobezerril
augustobezerril@tribunadonorte.com.br
O céu ficou cinzento, começou a chover e aqui em casa ficou escuro. O verão de Natal ficou meio inverno curitibano nesse dia 12 de janeiro de 2026. Titina Medeiros é levada para Acari e as redes sociais mostram a saída do cortejo fúnebre do Teatro Alberto Maranhão. Triste eu estava, triste fiquei mais. A jornalista curitibana Adélia Lopes foi a primeira pessoa a me perguntar sobre Titina, a Companhia Clowns de Shakespeare e sobre a Casa da Ribeira. Numa roda de jornalistas que cobriam a São Paulo Fashion Week, Adélia contou quanto ficou impactada ao ver a atriz potiguar no Festival de Teatro de Curitiba. Orgulhoso fiquei. E logo quando encontrei Titina, numa época antes do WhatssApp, contei sobre o episódio. E de pronto confessei que queria fazer editorial de moda e sempre que possível contribuir nas produções de moda. “Eu sou meio brejeira, você sabe né?“, respondeu Titina. Eu disse: “Você é maravihosa”, respondi. Nascia ali, uma série de imersões fashionistas fundamentadas na arte, cultura, sustentabilidade e afeto. O meu trabalho me deu a oportunidade de conhecer uma artista, mas também uma das pessoas mais doces, atenciosas e gentis que conheci em vida.

Hoje, a minha cabeça pode embaralhar as datas. Porém, sei que foi justamente quando Geová Rodrigues veio passar um verão em Natal (não sei se foi o primeiro depois que passou a morar em Nova York), que Titina Medeiros foi Rainha das Kengas. À época, acho que eu escrevia no canal de moda da Cabugi Globo.com – cujo design foi criado por Cesar Ferrario – companheiro de Titina. E obviamente registrei a cena de Geová e Titina em pleno baile mais que feérico no Clube América. Daí, os dois potiguares nutriam uma ligação de respeito profissional e uma torcida mútua. “Augusto, eu li uma reportagem linda sobre Geová. Você viu?”, escreveu Titina. “Nossa, Titina está arrasando em temporada em São Paulo. Ela é poderosa. O espetáculo é lindo”. escreveu Geová. Mas por incrível que possamos acreditar, Titina nunca vestiu roupa do estilista potiguar, radicado nos Estados Unidos. Também, apesar de todos os chamados, nunca consegui ir ver Sinapse Darvin. Assim como na arte, Titina apoiou estilistas e marcas potiguares, assim como iniciativas com valores humanitários e propósito.

Não vou lembrar o ano, mas uma das primeiras imersões de Titina na moda foi durante um lançamento de coleção da Arezzo, quando Titina foi homenageada com uma bolsa com o nome dela. Na hora que foi criada a arte, Titina pediu que colocasse um cacto. Lembro que ela usava um vestido de estampa xadrez, preto e branco, com aplicações de rosa vermelha assinado por Juraci Lira e, creio eu, um sapato bicolor em estilo boneca. Acho que no mesmo ano, Titina foi homenageada pela Swarovski. No período pós-pandemia, Titina aceitou participar do lançamento de produtos feitos de resíduos de plástico retirado do oceano. Eu tinha conhecido o processo da fabricação durante a Brasil Eco Fashion Week, contei todos os detalhes sobre as peças da Fiber. E de pronto, Titina disse sim. Não seria diferente: Titina é humanista. Ela sempre demonstrou interesse com a cidadania em Acari, onde cresceu. Como também em Natal e no Brasil.

O anjo da guarda fashionista Marcílio Amorim ligou para mim contando do desejo de ver Titina usando vestido da estilista potiguar Helô Rocha – que leva assinatura de Helô Rocha e Camila Pedroza – no tapete vermelho do Festival de Gramado. Ao pensar no look, pensamos que estávamos unindo o talento de mulheres potiguares, em especial as bordadeiras de Timbaúba dos Batistas – que são seridoenses como Titina. Conversei com Camila, mas a cena não aconteceu. No final de 2024, Titina estava impactando de A a Z. Veja a nota: Bora mexer o doce? Marcílio Amorim, fundador da Trama e Elenco Mosh, me procura desesperadamente, logo depois de Madonna no Brasil, para avisar que Titina Medeiros vai estar no tapete vermelho do Festival de Cinema de Gramado. Depois de pensar em grifes potiguares, eis que Titina vestiu Fruto de Conde por Denise Faertes no red carpet do kikito. Resumindo: o stylist Alexandre Schnabl logo topou a ideia. E a nossa estrela maior da arte potiguar foi recebida com todas as honras no ateliê e formou-se uma celebração de arte, moda e design em Laranjeiras, Rio de Janeiro. Eu não estava lá, mas senti toda vibração.

Eu e Titina firmamos a ideia de fazer um editorial de moda sexy. A ideia era de criar uma imagem de pin-up com ar divertido, inspirado na Hello Kitty e Betty Boop. O desejo surgiu quando imaginei Titina usando um vestido vermelho da grife Handlace. “Sabe que sou louca por gatos, né? E eu amo Hello Kitty“. Imaginamos a beleza de modo a marcar os olhos de lindos de Titina. A ideia de fazer uma capa de revista com Titina vem desde um jantar oferecido pelo estilista Francisco Costa, ex-diretor criativo da Calvin Klein, em Natal, com a presença de Titina. No vai-e-vem de achar que há tempo, ontem, quando voltava de Pedro Velho soube, por Geová, da notícia sobre Titina. Incrivelmente, eu tinha baixado a foto com as informações que lembrava da missa, dia 15 de janeiro, de 1 ano partida minha mãe Carmelita. Mamãe, que amava viajar para Curitiba, onde mora minha prima Isolda, foi das primeiras a falar sobre Titina por aqui e lá. Ela e minha irmã Priscila sempre acompanharam de perto o sucesso da nossa estrela. O céu ficou mais doce.
Foto Divulgação
