EUZINHO/ Descobri, em Espanha, um lugar chamado Becerril de Campos

POR AUGUSTO BEZERRIL
@augustobezerril
augustobezerril@tribunadonorte.com.br
Agora que fui despertar para Copa do mundo. Acho que o último mundial de futebol que acompanhei tenha sido, usando o pretérito adequado, a Copa de 1982. Tenho 55 anos. Todavia, nem mesmo a juventude me fez torcedor, no sentido de ver jogos. Lembro, porém, estando na Espanha, tive de fazer um certo esforço para saber sobre atletas brasileiros. Santiago, meu segundo pai em Salamanca, tinha o hábito de ver partidas e tentava compartilhar o gosto por comentar o que vira. Dona Emília, minha mãe salmantina, salva o embaraço ao introduzir alguma novidade da vida dos artistas, noticiada no programa Corazón, Corazón – exibido pela TV E. Não precisa dizer que ficamos vidrados em acompanhar os barracos de Naomi Campbell, quando namorou o bailarino Joaquin Cortès. Ademais, Dona Emília contava sobre o quanto a vida nos tempos da Segunda Guerra impactava os hábitos alimentares da família.
As campanhas de saúde pública eram igualmente impactantes na vivência dos Santiago. Por recomendação dos órgãos de saúde, estava proibido consumir açúcar. Bolo? Jamais. Certo final de tarde, não resisti e comprei uma sobremesa de abacaxi. Tentei esconder o “delito“, todavia, fui descoberto graças a presença de dois rapazes franceses, que estavam passagem no fim de semana. E como eu e uma inglesa chamada Kathleen, atendiam às normas da casa. Racionar também incluía água e luz elétrica. Porém, tirando o doce, não fui reclamado por tomar ios brasileiros três banhos diários. Gracias, Dona Emília.
Em razão da Espanha na final, voltei a me inteirar sobre a vida na Península Ibérica. Descobri que o trem de alta velocidade mudou o traçado das vias férreas. Caso eu estivesse hoje na mesma Calle Maria Auxiliadora não teria dificuldade em chegar em qualquer lugar, saindo de casa e caminhando até a estação de trem, localizada no bairro de Garrido. Tive a sorte de ficar nesse endereço, depois de ficar na famosa Frederico Anaya. Em ambas localidades, eu tinha acesso ao serviço bancário do Santander e mercados. Seguramente, pude experimentar a vida real dos moradores, fazendo tudo andando, desde casa à Plaza Mayor e às aulas na Universidade de Salamanca.

Pois bem, descobri agora uma coincidência capaz de me fazer ligado à Castilla Y Léon. Certa noite só me restou como opção de chegada em Salamanca de manhã, pegar um trem sentido Medina del Campo. Ao passar três horas na gélida madrugada, estava eu muito próximo de Becerril de Campos. Passei, portanto, no povoado de onde partiram os Bezerril pelo mundo, de Palencia e Valladoli. Sem querer, o trem percorreu uma região, povoada por judeus e cristãos, que ajudaram a espalhar tradições religiosas e culturais. Talvez e muito possivelmente, estiveram pelo Seridó e litoral potiguar, como há relatos na história. Penso eu, que o ser humano não é seu nome ou sobrenome, mas a essência da sua alma. Ficarei, talvez, feliz em fazer uma bike trip por Becerril. Andar pelos arredores como faço pedalando por Pedro Velho, onde nasci. Gostaria imensamente voltar ao Rio Tormes, dessa vez, pedalando. Quero conhecer o museu de astronomia. E quero estar no mundo da lua, mantendo os meus pés no chão.
P.S. Na minha primeira noite em Salamanca, eu conheci meu irmão chamado Jesus.
Fotos Augusto Bezerril
