RESPOSTA AO TEMPO / Memórias bordadas por Carmelita Bezerril

POR AUGUSTO BEZERRIL
@augustobezerril
Cedo era tarde demais, Está no livro O Amante, meu companheiro de cabeceira, está na vida. Cedo, aos 23 anos, minha irmã Carminha estas estradas por aqui, às 17h35, do dia 25 de janeiro de 1993. Minha mãe Carmelita passou dezenas de dias entre mesa de cirurgia, UTI e quarto de hospital entre a vida e a morte. Segundo contam sobre mim, eu teria sido lançado para fora do carro e teria seguido a vida tendo fraturas na lombar e cervical. Como escreve Marguerite, no final daquela tarde eu tenho as marca que me fazem eu hoje. Findava ali o sonho do meu carro que eu iria trocar, o verão entre estradas e a possibilidade de passar o carnaval em Salvador. Tudo se foi logo depois do locutor da 96 FM propagar que a gente tinha ouvido Márcia Freire cantar a mais nova música da Banda Cheiro de Amor. No último Carnatal, nem sei por qual motivo acabamos não saindo no Bloco Cheiro, mas no Bicho Papão, puxado por Ricardo Chaves. O bloco lá de casa era liderado, portanto, por Carminha. Cedo a gente teve de reinventar a volta do trio e reinventar a vida.

Na foto acima, Mamãe e Zezé Polessa na praia de Tabatinga. Mamãe tinha visto Nara, em curta temporada no Teatro Alberto Maranhão.
Nascida dia 31 de maio de 1951, minha mãe Carmelita veio ao mundo no exato horário da coroação de Nossa Senhora, um dos momentos mais lindos da fé católica. Dona Maria Lourdes Bezerril, pela única vez na vida, não participou do encerramento do mês dedicado à Maria. Minha avó, até deixar nos deixar aos 104 anos, sempre sentou no primeiro banco do lado esquerdo da Igreja Matriz de São Francisco de Assim, em Pedro Velho. Mais de um século de vida, vovó dormiu numa tarde, sempre lúcida e divertida, nos deixou. E o que todo mundo achou? Cedo. Mamãe e Priscila – minha irmã – não pouparam tempo e atenção para fazer Dona Mariquinha feliz. Quando eu menos esperava, estavam mamãe, Priscila, vovó e Tia Dinha em algum restaurante, praia, circo ou em algum lugar que desse sentido ser feliz. Creiam que quase desmaio no calor da Festa de Santanna em Caicó, mas vovó cumpria com alegria, entusiasmos, saúde e disposição (que eu não tenho!) a beleza da procissão da Santa dos Seridoenses. Enquanto eu buscava um lugar para quase desmaiar, mamãe arrumava um lugar para ficar mais perto do altar. Cedo, muito cedo, eu já tinha a soma dos anos. Comer buchada, ao meio dia sol do sertão? Juro que ainda vou tentar.

Sabe, Senhor! Como no cântico, o que temos é muito pouco parar dar. Mas pouco ou muito, na casa de Dona Carmelita a máxima é compartilhar.
Cresci no litoral, mas minha família tem origem no Seridó. A mesa da casa de mamãe sempre foi farta. Café, bolos artesanais, queijos regionais e artesanais, doces caseiros faziam divertimento de boca, como escrevia o colunista Jota Oliveira, dos comensais. Não tenho lembrança de mamãe fazendo crochê, mas não lhes faltava habilidades. Mamãe saiba pintar, costurar e magistralmente bordar. Até um dia desses, estava ela no grupo do bordado do condomínio. Com sabedoria, mamãe dedicava lugar de grande mestre do grupo à Dona Terezinha, que aos 93 anos, ainda compartilha o saber manual. Sempre vi mamãe bordar, mas somente agora em ocasião do tratamento de saúde e da tecnologia do Youtube, descobrir que a beleza do bordado tem muito de matemática. “Tudo parte de uma métrica. Se sobrou ou faltou linha é porque alguma coisa está errada”, explicou-me mamãe.

Para embelezar as tardes, eu também colocava em vídeos dos canais Casa de Valentina e Life By Lufe. Mamãe já não tinha paciência. Posto que o Youtube sempre voltava a algum episódio já visto. Geminiana e inteligente que era, Dona Carmelita não gostava muito de repetição. Acho que fui parar no jornalismo de moda por ter uma mamãe novidadeira. Pois que nos últimos dia de dezembro, o canal Life By Lufe mostrou a casa da ex-modelo Cláudia Liz. Lembrei-me que, após o acidente em que quase morri, deixei de dirigir e tinha pânico até mesmo quando alguém ia me deixar em alguma. O terror me rendeu uma falta a mais. Mesmo eu tendo notas próximas de 10, o professor Cassiano Arruda Câmara me reprovou por uma única falta. Então criei uma campanha publicitária. Em uma das peças, Cláudia Liz aparece vestida (na página da Playboy) tal Marylin Monroe. Do lado, tinha a frase. “Deus Poderia perdoar esse pecado. E o Senhor Poderia pérdoar as minhas faltas”. Era uma forma de tentar reverter o resultado, sem compartilhar um drama pessoal. Acho que aprendi com mamãe a não fazer publicidade sobre adversidades e, no sado, sobre minha passagem pela casa do poeta mais trágico da vida. Virei notícia. A minha ousadia criativa me botou na boca do povo na UFRN. Dono da maior agência de publicidade na época, o Professor me fez proposta de trabalho. O que era um sonho para um monte de alunos de comunicação, menos eu. Eu tão somente queria não repetir a disciplina. Era tarde demais, assim fui colega de curso de Laurita, filha de Cassiano. Ela, uma das poucas profissionais do jornalismo, que conhece minha plural visão de política. E sempre viu um certo talento meu para fazer coisas ao meu modo. O que tem muito de Dona Carmelita.

Enquanto ouvia um mundo de gente falar sobre a loucura de dizer não ao jornalista e publicitário mais poderoso do Rio Grande do Norte, mamãe tratou com máxima tranquilidade minha decisão. Ela até poderia discordar do meu errado (talvez) pensar, porém, a própria Dona Carmelita nos ensinou a caminhar pelo correto, respeitando os diferentes, sem arredar os princípios formadores do caráter. Eu, José Augusto Bezerril Neto, não fui em busca de um emprego. Se a peça publicitária não surtiu efeito por qual motivo o dono da agência iria me contratar? Cassiano, anos depois foi meu patrão. Fui imensamente feliz no projeto da editoria de moda, arquitetura e estilo de vida no Novo Jornal. De tão fascinado pela viabilidade do jornal, eu me juntei ao grupo de marketing e comercial. E fizemos das duas páginas um impactante sucesso comercial. Quase toda semana tínhamos o desafio de fazer com que o crescente número de anunciantes não interferisse no design gráfico (maravilhoso) de Novo Jornal. Leal às parcerias, Raffaela Rosito aceitou o desafio de atuar comigo em ativações de marca. Cedo, foi tarde demais. Mas o sucesso do projeto fez com que Sanzia Costa e Ricardo Alves fizeram-me a proposta de replicar e ampliar o projeto nas páginas da Tribuna do Norte. Nascia ABZ Tribuna do Norte. Mamãe volta e meia mandava comentários das amigas do bordado e do grupo do tTerço sobre alguma coisa que eu escrevia. Independente de eu escrever em veículo tradicional ou novo como foi o Novo Jornal, eu sempre levo comigo a máxima de Dona Carmelita. Um dia ela disse “Não importa o que as pessoas vão achar ou qual lugar de poder se ocupe, a vida aqui em casa somos nós mesmos. Somos sempre os mesmos, todo mundo é igual”.

Minha casa era uma praça pública. A mesa de lá de casa chegava a ter até 30 inesperadas visitas para o almoço. Creiam que, certo dia, um pessoa resolveu usar o copo para lavar uma dentadura, ainda na mesa, após uma refeição. Carminha quem me contou sobre o momento. Eu não vi. Meu quarto era uma lugar coletivo. Quando eu menos esperava tinha aparecia alguém que eu nunca tinha visto na vida para dormir sob o mesmo teto que o meu. Então, eu aproveitava esses momentos em que as atenções estavam voltadas para sala de jantar ou chamado living para ler livros, ouvir música e analisar revistas. Para mim, o jornalismo de comportamento me pegou via Interview. Eu até hoje sou fascinado por uma edição de julho de 1986 em que Silvia Pfeifer e Cláuda Liz aparecem em uma das muitas listas da revista. Anos depois, eu conheci Elzinha Barroso – companheira de Michael, publisher da versão brasileira da revista pensada por Andy Warhol. Cedo é tarde demais para para os muitos famosos. A moda me pegou por atração do livro O Império do Efêmero. Muito cedo, eu já tinha a marca do tempo. Meu avô João achava minha irmã Carminha e minha avó Carminha em Ana Paula Arósio. Eu, volta e meia, estou vendo um vídeo um vídeo do Faustão em que Nana Caymmi canta, na presença de Ana Paula, o tema de Hilda Furacão. No fina do romance, o amor se perde em meio à revolução. Ouço Resposta Ao Tempo.

Durante a busca por diagnóstico e todo tratamento, mamãe manteve-se tranquila e em paz e agradecida a Deus. Na foto acima, Dona Carmelita aparece no Coco Bambu. Eu sempre me inteirei sobre o mundo da gastronomia e lugares legais por mamãe. Bolo de aniversário? Mamãe sempre sabia onde tinha novidades em docerias e delicinhas. Não sou muito apaixonado por chocolate. Porém, eu não resisto à sobremesa com sabor de limão. Quando voltava de viagem a Recife, mamãe me trazia bolo de noiva – uma tradição pernambucana. Eu amo glacê marmorizdo. De tanto eu falar, mamãe sempre que passava em Daniel Bolos, ela me trazia uma fatia do adorável bolo de casamento – a única coisa que goste de festa de casamento. Mas isso ´[e outra prosa. Não sei se tenho coração para escrever mais sobre mamãe. Acredito, porém, que ela e os leitores merecem saber sobre Carmelita Fernandes Bezerril. Juliana Bezrril, minha irmã, fica espantada o quanto consigo reter de memórias. Alguns dizem que são quase poesia, contos, crônicas, obras literárias. Quase romance, talvez.
ABZ (RE) PLAY
Anos depois, euzinho, Clévis Oliveira, Bruna Castelo Branco fizemos o circuito Hilda Furacão por pontos como Edifício Jk e Praça da LIBERDADE.
Fotos Divulgação.
