18 de maio de 2024
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HISTÓRIA OLÍMPICA: Sarah Menezes: da frustração na China ao ouro na Inglaterra

Se ela tivesse perdido a hora na manhã do dia 28 de julho de 2012, não teria entrado para a história como a primeira mulher brasileira a ser campeã olímpica no judô. E um atraso bem que poderia ter acontecido: “Eu me esqueci de colocar o despertador. Quando pensei em colocar, já estava acordando no outro dia. Eu apaguei”, relembra, com bom humor, a piauiense Sarah Menezes. “A pesagem era bem cedo, às 7h da manhã, e umas 6h e pouquinho eu já estava acordando, até mesmo porque já tinha o hábito de acordar cedo. Ainda bem que naquela noite eu dormi super tranquila. Foi um sono como se estivesse em casa e não perdi a hora”, detalha.

Tranquilidade é uma de suas características que Sarah mais faz questão de enfatizar. Durante os Jogos Olímpicos de Londres 2012, essa foi uma das qualidades que pesaram no caminho que ela trilhou até a conquista do ouro. Mas nem sempre foi assim.

Quatro anos antes, Sarah havia disputado os Jogos Olímpicos de Pequim 2008 ainda pouco conhecida por parte do público brasileiro. Na ocasião, a escolha dos nomes de atletas como ela e Mayra Aguiar – que também seria medalhista em Londres 2012, com o bronze – chegou a receber críticas. As duas acabaram derrotadas logo na estreia.

“Eu fiquei tão nervosa na primeira luta que eu quase não conseguia subir na escadinha para ir para o tatame. O meu nervosismo não me deixou lutar e eu acabei perdendo bem no início”, lembra Sarah, que levou um ippon da húngara Eva Csernoviczki.

Além do nervosismo, a atleta hoje tem consciência de que outras distrações a atrapalharam na China. “A minha experiência em Pequim foi incrível porque eu era muito jovem, tinha 18 anos. Não tinha noção do que eram os Jogos Olímpicos. Eu me perdi lá dentro da Vila porque tinha muitas coisas”, explica.

O “perder-se” é justificado. “Eu fiquei deslumbrada pela Vila, pelas coisas que aconteciam, muitas coisas gratuitas. O atleta tira o foco completamente se ele chega aos Jogos Olímpicos e não é amadurecido”, alerta. “Tinha tudo: sala de jogos 24 horas, praça de alimentação 24 horas, boate 24 horas. Em Pequim eles fizeram uma baita estrutura na Vila. Tinha de tudo”.

A parte boa de sua primeira participação olímpica foi que Sarah tirou importantes lições do que viveu nos Jogos de Pequim 2008. Após perceber o poder das atrações do lado de fora do tatame e reconhecer que ainda faltava a ela domínio próprio dentro da área de luta, a judoca não tardou a perceber que depois da experiência na China havia a necessidade de um trabalho extra.

“Eu não aceitava a psicologia. Só queria treinar. Achava muito chato. Mas vi que era necessário aquilo para mim. Eu estava precisando, porque em alguns momentos eu não tinha controle de mim. Eu ficava muito tensa, nervosa, e não conseguia ter o controle”, reconhece. “Aí fui trabalhando, melhorando com as conversas, e comecei a controlar meu nervosismo quando ele aparecia. Conseguia ficar mais calma e ter domínio”, diz.

Por tudo isso, foi mesmo só depois dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 que o caminho de Sarah Menezes começou a tomar um novo rumo. “Quando eu saí de Pequim, imaginei que eu poderia estar ali novamente nos Jogos Olímpicos, lutar e conseguir uma medalha olímpica. Quando eu saí de lá e cheguei à minha cidade (Teresina), continuei treinando com foco e com pensamento bem positivo, imaginando os Jogos Olímpicos de Londres”, revela.

Enquanto isso, o reforço do lado psicológico a ajudava a não pensar que, quatro anos depois, poderia amargar uma nova derrota prematura. “Após as Olimpíadas de Pequim, os meus títulos melhoraram. Acredito que fui medalhista em todas as competições que participei. Estava sempre no pódio. Acho que foi a vontade de estar novamente numa Olimpíada e conquistar uma medalha. Acho que foi esse objetivo que coloquei para o meu ciclo seguinte”, acredita.

A “normalidade” de uma Olimpíada

A maneira como Sarah Menezes lidou com sua carreira após sua primeira participação olímpica não poderia ser mais acertada. Com os objetivos bem traçados, e sempre com os Jogos de Londres 2012 como a maior meta, muita coisa mudou.

Ainda em 2008, no mês de outubro, pouco depois das Olimpíadas em Pequim, Sarah conquistou, na Tailândia, o título de campeã mundial júnior. Um ano depois veio outro ouro, desta vez no Mundial júnior de Paris. E o que se seguiu foram mais medalhas, em etapas da Copa do Mundo e no Grand Slam do Rio, além de um quinto lugar no Mundial sênior, na Holanda.

Mas o início com pódios no novo ciclo olímpico foi apenas uma projeção de tudo que viria pela frente e que incluiria as duas medalhas de bronze nos Mundiais de 2010 e 2011.

“No meu ciclo de 2009 para 2012, a gente teve muitas competições, muitos treinamentos de campo, e eu fui evoluindo nesses treinamentos. Nas competições, eu estava indo muito bem, sempre chegava ao pódio, e passei todo esse ciclo treinando na minha cidade, em Teresina. Quando eu saía de Teresina era apenas para integrar a Seleção Brasileira”, conta. “Eu treinava pela manhã a parte de musculação e à noite a parte do tatame. Uma ou duas vezes na semana eu fazia a parte psicológica pelo Skype”, detalha a judoca.

“Fiz uma temporada muito boa, sempre foquei nos meus treinos, procurava a perfeição todos os dias, e as coisas foram bem tranquilas”, resume a campeã olímpica. Amparada pelos resultados daquele ciclo, Sarah embarcou em 2012 para a Grã-Bretanha de uma maneira muito diferente do que ela fez em 2008 e sem sentir qualquer pressão em relação ao maior evento esportivo do mundo. “Eu encarei a Olimpíada como uma competição normal, nem pensei em Jogos Olímpicos. Eu pensei em ir para a competição e fazer o meu melhor”, lembra.

Antes da parada final em Londres, a Seleção Brasileira de judô ficou concentrada em Sheffield para um período final de treinos e de aclimatação. “Em Pequim, a gente chegou e já ficou na Vila e não em outra cidade. Londres foi diferente. Eles montaram uma estrutura em Sheffield, a duas horas de distância. Ficamos concentrados nesse local, em uma mini-vila só para a seleção do Brasil e a gente fazia tudo: treinava, brincava, se divertia, tinha horário para tudo, mas era só a gente do Brasil”, recorda.

“Em seguida, a gente foi para a Vila. Fiquei dois dias lá e já lutei”, recorda a judoca, que não teve tempo e nem a disposição de quatro anos antes para ceder espaço ao deslumbramento ou às distrações oferecidas pela Vila Olímpica inglesa. “Aquela vivência que eu tive já não era mais de uma curiosidade. Eu já conhecia e tinha noção de como seria”, explica.

Descanso e isolamento

Se em Pequim Sarah Menezes se viu rodeada por pessoas e atividades de encher os olhos, em Londres a estratégia foi completamente oposta. “Na véspera da competição, eu só descansei. Fiquei o dia todo no quarto, conversando com o pessoal da equipe. Saía só para fazer a refeição e voltava”, resume. “Eu dormi muito cedo. Acho que umas 21h30 ou 22h eu já estava dormindo”, conta a atleta, que de tão focada no dia seguinte sequer se lembrou de acertar o despertador.

“Eu lembro que ninguém falou comigo. As pessoas me deixaram sossegada. No outro dia eu acordei, fiz a pesagem, tomei café e fomos para a competição”, enumera. Naquele ciclo, a regra ainda estipulava que a pesagem fosse realizada no mesmo dia da competição.

Estreia com a vietnamita

A estreia de Sarah Menezes nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 foi contra a vietnamita Ngoc Tu Van. O combate foi vencido com dois yukos e, ao fim, a brasileira foi tomada por um sentimento de alívio.

“Fiz um aquecimento bem forte. Não fiquei nervosa na primeira luta, me senti muito bem e consegui lutar”, recorda. “Eu nunca tinha pegado no quimono dessa atleta. Entrei bem atenta. Meu objetivo era não dar oportunidade para ela, era ter sempre iniciativa. Eu lembro que eu sempre pegava primeiro, entrava o golpe primeiro. Aí o tempo foi correndo. Quando saí dessa luta fiquei mais calma porque as outras atletas eu já conhecia. Só tinha que ter controle de não errar”, analisa.

“Após a primeira luta, a ficha vai caindo. Pensei: ‘ah, passei pela primeira!’. Continuei aquecendo. Gosto muito de conversar na área de aquecimento, não gosto de ficar fechada. Conversei com a Rosi (a técnica Rosicléia Campos), com a Gabriela Chibana, que me ajudou, era minha sparring. Aí sempre tinha nutricionista e o coordenador técnico, o Ney Wilson. Minhas duas irmãs e meu treinador Expedito Falcão estavam na arquibancada”, recorda.

Até aquele momento, Sarah só sabia que um pódio era, sim, uma meta possível. “Eu não imaginava que seria o ouro. Eu imaginava que era capaz de conquistar uma medalha. Conforme a competição foi andando, as medalhas foram aproximando e as cores foram ficando mais claras”, brinca.

Um minuto decisivo com a francesa

Passada a tensão da primeira luta, Sarah Menezes voltou ao tatame olímpico para enfrentar a francesa Laetitia Payet. O confronto, apertado, só foi definido faltando 20 segundos para o final do tempo regulamentar, por um yuko. “Eu me lembro muito bem. Sabia que era uma luta bem igual porque nas outras competições também havia sido assim. Aí eu pensei: ‘no último minuto vou ter que fazer alguma coisa’”, lembra.

“Consegui a derrubar para não ter o perigo do golden score. Eu lembro que estava com as duas mãos no quimono e dei como se fosse um carrinho de frente nela. Aí consegui derrubar a atleta de lado. Eu já tinha ganhado e perdido para ela, a gente ficava alternando. Tudo poderia acontecer. Ainda bem que eu estava igual nas faltas e, faltando esses 20 segundos, consegui fazer um ponto”, comemora.

A final antecipada

Confiante e embalada, Sarah, após superar a francesa e avançar às quartas de final, se viu diante de uma rival que, para ela, representava seu principal desafio em Londres: a chinesa Shugen Wu. “Ali era a minha final. Era uma atleta muito rápida, muito forte e perigosa. Eu já tinha ganhado e perdido também, mas era uma atleta de quem eu tinha receio, que eu achava muito perigosa”, admite.

“Foi uma luta bem dura, teve muitas faltas e pontos, parecia uma luta de cão e gato. Quando eu ganhei dela, eu respirei porque a minha chave estava andando e a minha semifinal seria com a belga”, revive a judoca, que superou a chinesa por um yuko após duas punições para a asiática.

A rival perfeita na semifinal

Encontrar a belga Charline Van Snick em uma semifinal olímpica foi uma surpresa bastante agradável para Sarah Menezes. “Fiquei muito tranquila porque essa belga nunca tinha me derrubado nem em treino”, explica Sarah. “Hoje, ela é muito forte para esse ciclo de 2016, melhorou muito. Eu me senti muito confiante porque, quando você treina com a pessoa, você sente a diferença. E na cabeça dela estava mais negativo do que positivo em relação a lutar comigo. Eu entrei muito tranquila”.

Sarah venceu a luta por um yuko, garantiu a vaga na final e, de quebra, teve a certeza de ter conquistado uma segunda medalha para o Brasil no primeiro dia do judô em Londres, já que, àquela altura, Felipe Kitadai havia assegurado o bronze.

Euforia e bronca

Com a prata assegurada, Sarah naturalmente foi tomada por uma sensação diferente. E passo seguinte foi comemorar. “Quando eu saí da semifinal, que passei para a final, eu vibrei, porque a medalha já estava garantida”, conta a judoca.

Percebendo isso, coube ao coordenador técnico da Seleção Brasileira Ney Wilson puxar Sarah de volta ao mundo real. Era verdade que ela já tinha conquistado um feito enorme. Mas os Jogos Olímpicos de Londres 2012, para a piauiense, ainda não tinham acabado.

“O chefe brigou comigo”, diverte-se Sarah. “O professor Ney chegou para mim e falou que não tinha acabado, que eu tinha que me concentrar porque faltava mais uma luta, que seria ainda como a primeira luta da competição”, prossegue Sarah, sorrindo.

O choque de Ney Wilson devolveu a atleta ao seu estado de espírito anterior. “Parei para pensar que realmente não tinha acabado e que a oportunidade e a chance eram naquele momento. A gente tinha chegado à medalha de prata, mas o objetivo era conquistar o ouro. Eu não podia ficar feliz só com a prata”, recorda.

Retrospecto favorável

Com a nova postura assimilada e tendo afastado os sentimentos de acomodação, Sarah almoçou, descansou e, uma hora antes da decisão, voltou para a área de aquecimento onde havia se concentrado ao longo da manhã. Foi quando, de fato, o ritual começou todo outra vez. Só que, agora, ela se preparava para um combate diferente. Aquele que, se fosse vencido, mudaria completamente a sua vida.

“Fiquei em um quartinho só com a Rosi e o Ney. Acho que nem o meu treinador Expedito chegou a falar comigo, não me lembro. Eu te juro que não pensava em nada, fiquei muito calma. Só pensava que era a última luta e que eu iria dar o meu máximo”, relata.

Para aquela final, Sarah ganhou, além da tranquilidade, um aliado que serviu como impulso para sua confiança: o retrospecto nos confrontos com a romena Alina Dimitru, campeã olímpica em Pequim 2008 e sua rival na decisão em Londres 2012, era animador.

“Lutei com essa atleta em 2009, nas quartas de final do Mundial. Mas quando comecei a acreditar que era possível ganhar dela, o tempo tinha acabado. Aquilo ficou na minha cabeça. Depois de 2009 e até 2012, as outras competições que eu tive com ela eu venci todas. Eu passei a confiar, a acreditar. Fui para cima todo tempo”, diz a piauiense.

Faltando apenas um mês para as Olimpíadas de Londres, Sarah Menezes e Alina Dimitru se encontraram novamente. “Fiz a final com ela no Grand Slam de Moscou e, se você pegar aquela luta e a final das Olimpíadas, são lutas muito parecidas. Fiquei engasgada com a derrota no Mundial de 2009, mas foi muito bom porque me fez evoluir, acreditar mais que era possível vencer aquela atleta, que era a campeã olímpica. Quando vi que a final seria com ela, passei a acreditar mais e pensei: ‘vou ser campeã olímpica, é a minha oportunidade’”, revela.

Assim, naquele quartinho isolado, enquanto aguardava o momento de voltar ao tatame para a luta mais importante de sua carreira, Sarah Menezes reviveu em sua mente exatamente o que havia colocado em prática um mês antes na Rússia.

“Eu me lembrei de como eu lutei, o que eu tinha que fazer, que não podia mudar a minha estratégia porque aquele jogo estava dando certo. Se não desse certo, eu tinha um plano B. Tinha que atentar para a mão direita dela, que era muito forte. Então, estava tudo esquematizado. Eu só tinha que ter o controle de fazer a ação na hora certa”, resume.

A decisão

Recuar quatro anos no tempo e lembrar aquele histórico 28 de julho de 2012 foi um exercício que emocionou a campeã olímpica. “Nossa, eu me lembro de todos os detalhes, é inesquecível”, diz Sarah, sem esconder o brilho nos olhos ao rememorar seu momento de maior consagração.

“O objetivo era dominar a mão direita dela. As regras eram diferentes, eu ia com as duas mãos e tirava a pegada também com as duas mãos. No momento em que ela me dominou, eu consegui fazer o golpe, foi quando dei o primeiro ponto”, narra a brasileira, que passou à frente no combate por um yuko, marcado quando restavam menos de 50 segundos para o fim da luta.

Com vantagem e com a adversária sentindo dores no braço direito, Sarah já deixou transparecer, ainda no tatame, uma certa emoção pelo que estava próximo de ser alcançado. “Eu já acreditei que era campeã naquele momento. Quando você entra em um tatame com uma atleta forte e ela dá o primeiro ponto, é muito difícil o outro virar, ainda mais em final olímpica. Até mesmo hoje, com a nova regra de vantagem de falta. Quando está faltando pouco tempo e o outro está na vantagem, você entra em desespero e acaba errando”, explica.

Foi o que aconteceu com a oponente. Faltando apenas 12 segundos para o término do combate, Sarah se viu diante da oportunidade de definir a luta. “Ela entrou em desespero depois que caiu. Aí, no final, acabou errando. Veio com a mão de uma vez e aí dei um wazari”, continua. “Era o momento que eu tinha para dar o mesmo golpe da final do Grand Slam de Moscou”, acrescenta.

Com a romena no chão, restou à jovem de Teresina, então com apenas 22 anos, manter-se no ataque. Ela ainda tentou o estrangulamento e com os braços em torno do pescoço da rival restava apenas aguardar o cronômetro zerar e selar o fim da luta. Quando o relógio enfim chegou a zero, Sarah Menezes, ainda no chão, explodiu em um sorriso, seguido de um grito. E o passo seguinte foi ceder às lágrimas.

“Continuei trabalhando no chão, fiquei ganhando tempo, tentando braço, pescoço, mexendo, fiz tudo. Foi quando acabou o tempo”, relata. Na ocasião, as lutas femininas ainda duravam cinco minutos – hoje são de apenas quatro.

No Youtube, há um vídeo oficial do Comitê Olímpico Internacional (COI) com a íntegra da luta entre Sarah Menezes e Alina Dimitru na final olímpica da categoria -48kg nos Jogos de Londres 2012. Na narração oficial, em inglês, o locutor sentenciou, ao fim do duelo: “A new sporting star in Brazil is born and her name is Sarah Menezes! (uma nova estrela do esporte nasce no Brasil e o nome dela é Sarah Menezes)”. Ele não poderia estar mais certo.

Ainda deitada no tatame, Sarah chorou. Do lado de fora, a técnica Rosicléia Campos não se conteve. Ela pulava e gritava. A alegria era incontrolável. Afinal, o feito que a pequena piauiense havia conquistado em Londres era enorme. O Brasil, finalmente, assistiria uma de suas judocas subir ao lugar mais alto do pódio olímpico para receber uma medalha de ouro.

“A ficha só caiu depois de dois dias, porque na hora mesmo eu fiquei tão emocionada que fiquei no meio do tempo, nas nuvens, ainda estava flutuando. Foi uma sensação muito gostosa. Meu treinador me puxou na arquibancada, subi e abracei o Expedito e a minha irmã. Foi bem legal”, conta Sarah, divertindo-se com lembranças tão especiais.

Aquele domingo em Londres, que nunca será apagado, serviu ainda como um presente para a irmã mais velha, Sâmia. “Era o aniversário dela e ela estava lá. Para mim vai ser uma data inesquecível porque foi o final da construção do início da minha história. O grande objetivo de um atleta é ir para uma Olimpíada e conquistar uma medalha de ouro. Isso vai estar sempre no meu currículo”, emociona-se.

Noite em claro

Passada a festa nas arquibancadas após a final, Sarah Menezes não teve tempo suficiente para celebrar a conquista inédita e tampouco avaliar seu significado para o esporte brasileiro.

“Após a competição teve o exame de doping e aí passamos por todas as tevês (para entrevistas). Cheguei de madrugada e já tinha que voltar para a competição na manhã seguinte porque tinha que aquecer com a Érika (Miranda)”, conta. “Eu não dormi. Fiquei virada e passei o outro dia todo na competição. Quando voltei para a Vila, à noite, foi que entrei nas redes sociais. Aí a ficha caiu, porque vi um monte de matérias, vi meu nome com o ‘campeã olímpica’. Aí comecei a lembrar de tudo, rever tudo. Foi muito emocionante”, relata.

Hoje, Sarah sabe bem o que o dia 28 de julho de 2012 representou. “Eu consegui quebrar um jejum de muitos anos e a gente conseguiu aumentar a história do Brasil no judô feminino porque a primeira medalha foi da Ketleyn (Quadros), em Pequim, que abriu as portas (a brasiliense levou o bronze em 2008)”, analisa. “Em seguida veio a minha de ouro e o bronze da Mayra (Aguiar, também em Londres). A gente ficou muito feliz porque foram muitos anos de batalha. A gente não tinha espaço, o judô feminino não tinha nome ainda. Passou a ter depois dos Jogos Olímpicos de Londres”, acredita.

Choro dos campeões

No dia seguinte à final e já com a medalha ouro no peito, a pequena Sarah Menezes encontrou-se na Inglaterra com os únicos dois atletas do Brasil que, como ela, haviam protagonizado a façanha de subir ao lugar mais alto do pódio em Olimpíadas: Rogério Sampaio (Barcelona 1992) e Aurélio Miguel (Seul 1988).

“Encontrei com eles e tiramos fotos lá em Londres. Eles me parabenizaram e os dois choraram. tenho essas fotos no meu celular”, conta, mostrando as imagens que carrega consigo.

Quando Aurélio Miguel abriu as portas do judô brasileiro para a conquista de medalhas de ouro olímpicas na Coreia do Sul, em 1988, Rogério Sampaio não estava no Jangchung Gymnasium, em Seul. Ele acompanhou o triunfo do amigo de casa, no Brasil.

Com Sarah Menezes, entretanto, foi diferente. E desse episódio Rogério Sampaio, ainda hoje, fala com emoção. “O meu ouro, em 1992, além de ser o último do judô masculino do Brasil, foi o último do judô masculino pan-americano. Nunca mais um atleta do Canadá para baixo conquistou um ouro em Olimpíadas”, ressalta Rogério. “Então, sobre aquele ouro da Sarah em 2012, o que posso dizer é que eu tenho que agradecê-la muito. Eu já tinha vivido aquela emoção da conquista de um ouro olímpico. Mas a emoção de ver uma atleta do Brasil da minha modalidade conquistar um ouro olímpico, de ver a bandeira subindo e ouvir o Hino Nacional foi muito especial também. Ter experimentado tudo isso me deixou muito feliz e, ao mesmo tempo, foi impossível não relembrar a minha conquista de 20 anos antes”, prossegue o campeão olímpico.

“Eu estava transmitindo a luta pela Record e não teve como não ficar emocionado durante a transmissão. Agora, a gente espera que ela possa conquistar o bicampeonato no Rio. Eu e o Aurélio nos encontramos com a Sarah no dia seguinte da conquista dela. Ela nos mostrou a medalha e não teve como não se emocionar com aquilo tudo”, encerra Rogério.

Cobranças após o ouro

A visibilidade da conquista de Sarah em Londres acarretou uma maior pressão por novos resultados sobre a judoca. Ao longo de nove meses, entre julho de 2014 e abril de 2015, a brasileira ficou fora do pódio das principais competições e viu seu nome rodeado por críticas.

“Eu não ligava para o que falavam pela mídia, até porque não eram eles que estavam treinando, se dedicando, fazendo o meu papel. Sou uma pessoa muito calma, tranquila, nunca liguei para o que os outros falam. Isso não vai mudar em nada na minha vida”, pondera.

Para o gestor Ney Wilson, Sarah passou por uma fase considerada natural. “Com atleta medalhista olímpico, você pode colocar um recesso de no mínimo um ano ou um ano e meio para ele voltar ao que era. É natural. Ele é atropelado, não tem noção do que vai acontecer na vida dele depois de uma medalha”, justifica. “Não é fácil e a volta é cruel porque é um medalhista olímpico e tem que ganhar. Aí não está tão em forma, precisa ganhar ritmo, e tem a cobrança. Mas ela está chegando (ao auge) no momento certo e é uma candidata forte a uma medalha olímpica no Rio”, afirmou o dirigente, durante a convocação da seleção olímpica, em junho deste ano.

Nesse período, Sarah aproveitou os bônus da conquista para se dedicar a trabalhos alheios ao tatame. “Dei entrevistas, fiz palestras, participei de alguns eventos, treinei, tentei terminar a faculdade, mas não consegui. Depois tive que trancar. Foi uma avalanche muito grande. Eu não dei conta. Eu tentei, não desisti. O problema foi que eu quis arriscar e as coisas não foram andando”, reconhece. “No último ano antes do Rio 2016, eu percebi que ia precisar trancar tudo e treinar. Aí o resultado veio”, ressalta.

“Depois das Olimpíadas do Rio, vou terminar minha faculdade em vez de ficar dois anos perdendo e com as pessoas falando mal. Vou ficar dois anos estudando e depois volto só para treinar”, fala, aos risos. “Vai dar no mesmo, melhor do que perder a cabeça”, acrescenta a estudante de educação física.

Inspiração para os próximos dias

O título de quatro anos atrás serve hoje como propulsão para as Olimpíadas Rio 2016. “Para mim é uma referência. Eu penso que tenho mais um desafio pela frente. O objetivo não é mais ser campeã olímpica, é ser bicampeã olímpica”, determina. “Isso me dá mais força, motivação, é um desafio a mais que eu vou ter para escutar novamente o Hino Nacional nos Jogos Olímpicos estando dentro de casa e com o Brasil todo próximo. Vai ser muito diferente e mais gostoso ainda”, acredita.

“A Olimpíada dentro de casa é uma motivação muito grande. Sou muito jovem ainda e quero defender o título. Tenho capacidade de conseguir isso, não é impossível. Dá para eu entrar mais uma vez na história sendo bicampeã olímpica e depois é só festejar”, acredita a judoca, que aos nove anos iniciou no esporte escondida dos pais, em Teresina. Agora, aos 26, Sarah exibe disposição para ainda seguir por outro ciclo olímpico, rumo a Tóquio 2020.

“No início era difícil porque minha cidade não tinha tradição. Em esporte de luta você mescla com homem, aí era difícil para os meus pais aceitarem naquela época. Mas deu certo. Hoje é outra história: eu sou a deusa de casa”, diz, bem-humorada. “O esporte mudou a nossa vida, consegui dar muitos frutos para a minha família. A gente evoluiu muito com o esporte, então hoje é só alegria dentro da família”, afirma a atleta, que é contemplada com a Bolsa Pódio do governo federal.

Deixar a cidade de origem, contudo, foi uma das tarefas mais árduas para o ciclo olímpico atual. “Tive que vir para o Rio. No ciclo de Londres, eu ainda tinha pessoas para treinar na minha cidade. Mas depois elas começaram a parar e foram estudar, trabalhar, focar em outras áreas. E minha profissão sempre foi ser atleta. Então, para ir para a Olimpíada eu tinha que sair da minha cidade porque não estava mais tendo treino”, lamenta.

“Tive uma reunião com a confederação e o Comitê Olímpico (COB) e no ano passado eu vim para cá. Eu não queria sair de lá, queria estudar. Tentei tudo, mas quando vi que não estava dando, foi minha última opção. Após os Jogos eu volto para a minha cidade”, promete. E, se tudo der certo, com outro ouro pendurado no peito.

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