A filosofia do futebol: Cobrança antecipada
A filosofia do futebol: Cobrança antecipada
Leio, ouço, assisto, comento. Fessin caiu de produção. Ele não está com a cabeça no ABC. Ele não merece mais a camisa 10 do Alvinegro. Agora só pensa no Corinthians. Só está vendo o dinheiro que vai ganhar. Está mal e merece a reserva.
Essas são cobranças públicas em cima de um jovem com menos de 20 anos. São exigências feitas nos veículos de comunicação e nas famosas redes sociais. São, por vezes, até ditas e escritas por mim mesmo, que me encontro inserido em uma sociedade cada vez mais “trituradora” de seres humanos e de seus sonhos.
Esse menino, repete, quase que na mesma proporção dos filmes da Sessão da Tarde, a história de milhares de brasileirinhos que, de origem humilde, conseguem graças ao futebol, a notoriedade e a ascensão social que poucos irão conseguir nesse país. Como em outros casos, isso ocorre não de forma planejada. A fama e seus benefícios e malefícios chega chutando a porta do dia para a noite.
De repente, aquele menino que mal tinha dinheiro para as refeições passa a ter a chance de comprar um carro importado, roupas da moda, etc. De uma hora pra outra, surgem amigos e também tutores.
Ao contrário daquele jovem, cujas experiências irão se acumulando na escola, nos bancos da faculdade e nas salas de estágio. Esse vira mestre do dia para a noite.
A origem humilde, muitas vezes não lhe deu a oportunidade da leitura. Quase sempre esses jovens vêm de famílias cujos exemplos de sacrifício já lhe sufocam e impõe uma cobrança acima do normal.
No entanto, essas cobranças “caseiras” não se comparam as exigências do mundo exterior e, no caso de um jogador de futebol, elas agora chegam cada vez mais cedo. Ah, mas eu cobro dos meus filhos também desde cedo!, irá dizer o apressado (a). Eu também, responderei eu. Por vezes, exijo do meu filho de seis anos, atitudes de adulto. No entanto, ao reconhecer meu erro, abraço, dou carinho e seguimos aprendendo juntos, ele a crescer e eu a ser um pai melhor.
Já para os “fessins” da vida, não existe o carinho e o aprendizado, não há o meio termo. Ora ele é o craque da década, ora o perna de pau interessado apenas na grana corintiana.
Mas, aproveitando a lição que aprendi em casa e cujos livros me permitiram comprovar eu digo: Temos que ter mais paciência com nossos jovens. Temos que aprender a lidar melhor com suas reações, inclusive no meio futebolístico. Isso, precisa ser revisto, sob o risco de nos tornarmos mais um dos “trituradores” da sociedade.
Por fim, se Fessin vai ou fica, não sei. Só espero que ele saiba lidar com essas cobranças, cresça de cabeça e profissionalmente. Tome como lições as experiências que está vivendo e que tenha sorte de não ser esmagado por tutores mal intencionados e pessoas de coração ruim. Boa sorte ao camisa 10.
Itamar Ciríaco
