Milhões por ponto — e o que o ABC e o América podem aprender com isso
Estar no topo do futebol brasileiro custa um preço — e não é barato. Mas há um custo ainda mais alto: o de errar. Dependendo dos acertos e tropeços de uma diretoria, o gasto pode dobrar ou render dividendos esportivos.
Um levantamento do Bolavip Brasil mostrou quanto está custando, literalmente, cada ponto de Palmeiras e Flamengo numa temporada em que os dois brigam por tudo — Brasileirão e Libertadores.
E a conta é reveladora: o Flamengo gasta 33% mais para conquistar cada ponto do que o rival paulista. Ou seja: o Palmeiras faz mais com menos. O time de Abel Ferreira é o exemplo clássico de quem entende que eficiência vale mais que ostentação.
Segundo os números, cada ponto do Flamengo custa R$ 2,19 milhões. No Palmeiras, R$ 1,64 milhão. O levantamento considera todas as competições e todos os gastos com o elenco até a 28ª rodada do Brasileirão.
Para efeito de comparação, Flamengo e Palmeiras gastam com salários, em média, 61% mais do que os outros 18 clubes da Série A. É uma diferença brutal — mas dentro do que o futebol moderno exige para se manter no topo.
Só que o que chama atenção não é o valor absoluto, e sim a qualidade do investimento. O Flamengo tem o elenco mais caro, mas vive oscilando. O Palmeiras, com menos gasto, é mais competitivo, mais organizado, mais constante. Enquanto um coleciona manchetes, o outro coleciona títulos.
A distribuição da folha salarial mostra bem essa diferença de filosofia. O Flamengo destina 43% de sua folha aos atacantes. O Palmeiras, incríveis 62%.
E ainda assim, os dois marcam praticamente o mesmo número de gols: 111 do Flamengo em 61 jogos e 112 do Palmeiras em 62.
Sabe o que isso mostra?
Que gastar mais não garante resultado — gastar certo, sim.
No meio-campo, o desequilíbrio se repete. O Flamengo reserva 26% da folha para meias, mantendo estrelas como Jorginho, Saúl e Arrascaeta.
O Palmeiras investe só 8%, e mesmo assim equilibra o setor com disciplina tática e treinamento. Na defesa, ambos gastam parecido: 30% e 31% das folhas. O resultado também é semelhante: os dois sofrem poucos gols, mas o sistema palmeirense é mais coeso, mais coletivo.
Agora, guardadas as devidas proporções — bem devidas, por sinal —, o que isso tem a ver com ABC e América?
Tudo.
Porque se lá em cima a disputa é por quem investe melhor os milhões, por aqui a luta é pra saber quem consegue chegar ao fim do mês com a folha em dia.
Mas o princípio é o mesmo: gestão e coerência. O Palmeiras não virou referência por ter o maior orçamento, e sim por ter um projeto.
O Flamengo, apesar dos altos e baixos, também é fruto de uma estrutura sólida, que começou lá atrás, quando o clube resolveu virar empresa antes da SAF virar moda.
Enquanto isso, o ABC tem uma estrutura física invejável para o seu nível de competição, mas continua fazendo futebol de improviso. Contrata como quem apaga incêndio.
Planeja o ano em blocos de três jogos. E quando perde dois, muda tudo. É a síndrome da “reformulação eterna”, doença que consome clubes médios e impede qualquer evolução sustentável.
O América, por sua vez, vive um dilema parecido. Tentou se reestruturar, fez movimentos importantes fora de campo, mas ainda não encontrou estabilidade dentro dele.
É como se o clube enxergasse o modelo certo, mas desistisse no meio do caminho — talvez por impaciência, talvez por falta de convicção. E sem convicção, não há fórmula que funcione.
Os exemplos de Flamengo e Palmeiras mostram que o sucesso não é acidental. Ele é planejado, calculado e sustentado por decisões que nem sempre agradam no curto prazo. Abel Ferreira é criticado, mas fica.
No Flamengo, o técnico troca, mas a base da estrutura não muda. Há critérios, há hierarquia, há norte.
Em Natal, o que mais falta é norte. Cada temporada é uma corrida atrás do próprio rabo. Não há política de valorização da base, nem plano de captação de talentos regionais que funcione de forma contínua.
E o resultado é previsível: elenco caro para a realidade local, performance irregular e torcedor cansado.
O ABC poderia se inspirar no modelo palmeirense, adaptando-o à sua escala: apostar na base, investir em análise de desempenho e tratar o futebol como empresa, não como um balcão de urgências.
O América, por sua vez, poderia aprender com o Flamengo — não com a gastança, mas com a capacidade de transformar marca em ativo.
O clube tem torcida fiel e identidade forte; falta transformar isso em negócio, em receita, em estrutura.
No fim, o Palmeiras mostra que é possível gastar bem. O Flamengo, que dinheiro ajuda, mas não garante. E o futebol potiguar mostra, há anos, que sem gestão nem milagre segura.
Talvez o ponto conquistado pelo Palmeiras custe R$ 1,64 milhão. O do Flamengo, R$ 2,19 milhões. Mas o ponto que o ABC e o América tanto precisam continua custando caro — porque aqui o preço não é em reais.
É em paciência, planejamento e competência. E, convenhamos, esses três itens estão em falta no mercado.
