Cremona, um sonho de infância
-Crônica 1 (setembro de 2013)
Quando cheguei na “Stazione Ferroviaria di Cremona”, senti um aroma familiar e muito potente de alguma especiaria. Fiquei curioso, mas a empolgação era tanta que fui logo entrando no táxi e me encaminhando ao hotel somente para largar as malas em qualquer lugar e ir conhecer a cidade a pé.
Por uma feliz coincidência, era o primeiro dia do MondoMusica, uma feira de instrumentos de corda e piano super conceituada na Europa. Visitar Cremona era parte de um roteiro que elaborei para levar um grupo de alunos para a Itália com o objetivo de conhecer as cidades “berço” do violino. Na ocasião, fomos primeiramente para Milão e Veneza, e somente no final da nossa tão esperada viagem de campo, desembarcamos no nosso destino principal, Cremona, a cidade de Antonio Stradivari. Acompanhado por meus alunos, Márcia Oliveira, Maria Eugênia de Medeiros, Kethrine Dantas e Geane Paiva, além de Filipe Dantas, irmão de Kethrine, tivemos a oportunidade de ver de perto a rica tradição musical e cultural daquele lugar. Essa experiência fora dos padrões e pacotes turísticos ficará, com detalhes, na nossa memória pelo resto da vida.
No início, fomos imediatamente atraídos pelas luterias, muitas delas centenárias. As esquinas contêm placas para que os visitantes possam identificar as que estão presentes naquela rua ou ruela. Era cada vez mais difícil segurar o queixo. Entrar na oficina de um luthier que realiza um ofício de 4 ou 5 gerações é uma experiência sem igual. O cheiro da madeira raspada e dos vernizes preenchia o ar, enquanto fitávamos o processo meticuloso de criação dos instrumentos. Meus alunos, fascinados, faziam algumas perguntas e observavam atentamente cada etapa do trabalho. Era claro que essa experiência iria influenciar profundamente suas próprias jornadas musicais. E “bingo”! Não deu outra.
A livraria Cremona Books foi outro ponto marcante da nossa visita. Cercados por livros que detalhavam a história da música e as técnicas dos grandes mestres luthiers, percebemos a real importância da preservação desse conhecimento que perdura por séculos. Os livros e souvenirs que adquirimos eram agora peças fundamentais para nosso processo de desenvolvimento futuro.
Tivemos o privilégio de assistir a Renaud Capuçon e Dan Zhu, o Trio de Cordas Amati e os quartetos Stradivari e Guadagnini. Os concertos no Museu do Violino, recém-inaugurado, foram o ápice da visita, com uma acústica única que amplificava a qualidade das apresentações. Todos os concertos aconteceram no auditório de 450 lugares do museu, que foi projetado em colaboração com Yasuhisa Toyota, o engenheiro acústico cujos projetos anteriores incluíam o Walt Disney Concert Hall em Los Angeles.
O Museu do Violino não apenas abriga esses concertos, mas também oferece uma rica programação de atividades. Visitamos exposições detalhadas sobre a história dos instrumentos de corda, assistimos a demonstrações ao vivo de construção e restauração de violinos e participamos de workshops interativos que tratavam da acústica, finalização e testes finais dos instrumentos. Além disso, tivemos a oportunidade de ver de perto uma coleção de violinos históricos, incluindo alguns fabricados pelos lendários Stradivari, Guarneri e Amati.
Além da música, a gastronomia de Cremona também se encaixa nos tantos sinônimos atribuídos à Itália. Os vinhos da Lombardia harmonizavam perfeitamente com os pratos acompanhados da famosa mostarda de Cremona, e foi aí que lembrei daquele aroma na estação; tratava-se da mostarda icônica do lugar. Em alguns pequenos restaurantes familiares próximos ao Duomo, experimentamos massas que combinavam ingredientes frescos e locais. Um dos proprietários, um senhor gentil de quem não lembro o nome, era um entusiasta da música, e compartilhava com nosso grupo algumas histórias da cidade enquanto corria entre uma mesa e outra. Penso eu, que a música, presente em todos os cantos daquele pitoresco lugar, provoca instantaneamente toda essa atmosfera.
Nossa visita a Cremona foi extraordinária. Voltei para casa com novas ideias, inspirações e um, ainda mais profundo, apreço pelas tradições. E, mais importante, vi nos olhos dos meus alunos um renovado entusiasmo e paixão pelas artes, que certamente influenciou seus percursos posteriores com o instrumento.
Cremona deixou uma marca duradoura em todos nós.
Voltarei!
