13 de abril de 2026
Crônicas

MILÃO: Comi pizza na sarjeta, toquei salsa na praça e fiquei bem caladinho no alla Scala

Chegamos em Milão numa noite fria, por volta das 22h, quando o aeroporto de Malpensa já estava envolto em um silêncio interrompido apenas pelo movimento dos passageiros tardios. Sem demora, pegamos um ônibus em direção ao Via Lincoln, um dos bairros residenciais mais charmosos da cidade. O trajeto levou cerca de 50 minutos, tempo em que o cansaço da viagem começou a dar lugar à expectativa de descobrir mais um pedaço da Itália. Quando finalmente chegamos ao hotel, a cidade parecia respirar lentamente, as ruas do Via Lincoln já quase desertas, e o restaurante do hotel fechado, deixando claro que nossa fome teria que esperar.

A fome, no entanto, não podia ser ignorada. Peguei um táxi e pedi ao motorista que me levasse à pizzaria mais próxima (poderia ir a pé, visto que eram somente três quadras até lá em uma rua paralela, mas o taxista não fez muita questão de me alertar pra isso). Fomos parar em um estabelecimento simples, mas de onde vinha um aroma irresistível de massa recém assada e ingredientes frescos. Escolhi três pizzas com sabores menos convencionais, priorizando a curiosidade do que o paladar já conhecido. De volta ao hotel, abrimos aquelas caixas como quem descobre um segredo bem guardado. Uma delas, com cogumelos assados e parmesão, se destacou pela textura e sabor, e ficou marcada na memória como a melhor que já comi até então. Ali no hotel, matamos a fome e a curiosidade em uma refeição que, embora improvisada, foi cheia de satisfação.

No dia seguinte, nossa primeira parada foi o Duomo de Milão. Chegamos cedo, o que nos permitiu entrar sem enfrentar muitas filas. A catedral, um monumento da arquitetura gótica, é um verdadeiro espetáculo. A fachada em mármore branco e rosa refletia a luz do sol nascente, e as centenas de estátuas que adornam o exterior pareciam vigiar a cidade com um olhar atento. Os detalhes esculpidos e a expressão nas faces das estátuas impressionam profundamente. Dentro da catedral, os tetos e os vitrais trazem uma atmosfera de veneração, marcada pela luz suave que atravessava os vitrais e se espalhava pelo chão de mármore.

Depois de explorar o Duomo, enquanto as meninas seguiam para as compras, fui até o Teatro alla Scala, que fica logo nos fundos da Galeria Vittorio Emanuele II. Esse teatro, um dos mais renomados do mundo, sempre foi para mim um lugar especial, quase sagrado. Ao entrar, fui tomado por uma sensação de reverência. Olhei ao redor e imaginei as apresentações de grandes nomes como Paganini, Toscanini, e Maria Callas, que ecoavam naquelas paredes. Sentei por um momento, deixando o silêncio me envolver. Esse lugar é um templo da música, e qualquer som que não seja digno das grandes obras ali apresentadas seria uma profanação. Sentir a presença daqueles gênios era inspirador e, ao mesmo tempo, um lembrete da grandiosidade da arte que passou por ali.

Na saída do teatro, fui surpreendido por uma cena inesperada. Na praça ao lado, uma dupla de imigrantes tocava música latina, trazendo um contraste vibrante ao ambiente clássico e formal que eu acabara de deixar. Sem pensar muito, me juntei a eles, pegando um jambe e me integrando à pequena celebração improvisada. Foi um momento de pura descontração, onde a música que tocávamos parecia dissolver as barreiras culturais e sociais.

Um fato curioso e marcante dessa viagem foi o momento em que, após essa sessão musical improvisada, percebi homens com ternos de alfaiataria impecáveis e mulheres pra lá de alinhadas, sentados na sarjeta. Todos indo e vindo de seus trabalhos e parando ali naquele lugar para comer uma fatia de pizza na calçada rapidamente e em seguida beber um copinho de vinho (de isopor) para então poder continuar sua jornada. Não pensei duas vezes e fiz o mesmo. Naquele instante, percebi como a vida pode ser simples e complexa ao mesmo tempo. Comer uma pizza sentado na rua, enquanto a cidade ao redor se movimentava em seu ritmo frenético, me fez refletir sobre a simplicidade que precisa e deve estar presente até nos ambientes mais sofisticados.

Na manhã seguinte, fomos ao Castelo Sforzesco, uma das joias de Milão, que remonta ao século XV. Ao entrar pelo portão principal, nos deparamos com a imponência da estrutura de tijolos vermelhos. Nos séculos passados, aquela fortaleza protegia a cidade contra invasores. As torres parecem contar uma história de defesa, de poder. Atravessando o pátio, cheguei ao Museu de Instrumentos Musicais. O ponto alto da visita para mim, foi de fato andar por aquelas salas com violinos, cravos, liras, todos preservados com um cuidado meticuloso. Um cravo em particular chamou minha atenção, decorado com detalhes em ouro e madeira, parecia ter saído diretamente de um salão nobre do século XVIII. A história, a música e a arte se entrelaçavam ali em uma silenciosa conexão com o passado.

Seguindo pelos corredores do castelo, cheguei ao Parco Sempione, que se estende logo atrás. O contraste entre a fortaleza e a suavidade do parque era marcante, com um ar ali diferente, mais leve, quase como se o tempo parasse. As árvores antigas criavam um ambiente sereno, onde o barulho da cidade parecia não chegar. Vi alguns animais silvestres pelo caminho, patos nadando em pequenos lagos, enquanto os visitantes passeavam tranquilamente. Por um momento, o castelo ficou para trás, e apenas a natureza parecia importar.

Estou falando de uma cidade que mescla sofisticação e simplicidade de forma única. Andar por suas ruas é experimentar uma mistura de modernidade e tradição, onde o antigo e o novo coexistem harmoniosamente. Comer uma fatia de pizza na sarjeta, vestido com um terno Cesare Attolini, é uma experiência que resume o estilo de vida milanês: viver com leveza, aproveitando o melhor dos dois mundos. Os milaneses são cosmopolitas por natureza, amantes dos esportes ao ar livre, e parece que entendem como ninguém o valor de uma vida equilibrada.

Milão é especial justamente por isso: por ser um a cidade onde o luxo encontra o cotidiano de forma natural, sem pretensões. É um lugar onde se pode viver com elegância e simplicidade ao mesmo tempo, e talvez seja essa combinação que a torna tão fora da curva.

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