VENEZA: Conservatorio Benedetto Marcello e Chiesa di San Vidal
Veneza abriga tesouros que vão além de seus canais e monumentos históricos. Durante minha última visita à cidade, explorei dois marcos significativos: o Conservatório Benedetto Marcello e a Chiesa di San Vidal.
O Conservatorio Benedetto Marcello é uma das principais escolas da Itália e fica situado no grandioso Palazzo Pisani. Foi fundado em 1876 e desempenhou um papel fundamental na formação de inúmeros músicos de renome, como Gian Francesco Malipiero, uma figura central na modernização da música italiana, e Luigi Nono, também conhecido por suas abordagens inovadoras na música contemporânea. Estes são apenas dois exemplos dos muitos talentos que passaram por suas salas.
Embelezado com afrescos, estátuas, decorações em mármore, estuques e frisos, o lugar é dividido em dois pátios internos separados por galerias aéreas e grandes salões em vários andares. São numerosos os espaços destinados a aulas e estudos, com salas especiais para práticas orquestrais e corais como a da foto acima. A biblioteca inclui cerca de 50.000 volumes, com coleções históricas. Entre as recordações de época guardadas no Museu da Música, destacam-se alguns objetos doados por Richard Wagner. Entre as classes musicais presentes, está a classe de música eletrônica, fundada pelo maestro, médico e antropólogo Giuseppe Sinopoli, mais um dos gênios que passaram por lá como alunos. Além das disciplinas tradicionais, há uma ampla oferta de cursos de música antiga. O Conservatório Benedetto Marcello mantém intacta uma tradição de rigor, disciplina e seletividade que sempre esteve na origem do seu prestígio. A visita para nós músicos, aspirantes a músicos ou apreciadores é obrigatória.
Na saída do conservatório, paramos para almoçar no Ristorante Al Conte Pescaor, estrategicamente localizado na esquina entre o conservatório e a Chiesa di San Vidal. Este restaurante foi dica do meu amigo russo Dmitri Utkin, que pegava um trem pra Veneza saindo de Viana todo fim de semana pra namorar com sua hoje esposa Aurélia, mas esse detalhe é assunto pra outra crônica. O restaurante, conhecido por sua culinária veneziana autêntica, ofereceu um almoço com pratos de frutos do mar frescos e um vinho branco local que complementou perfeitamente a refeição. Na época, eu não entendia bulhufas de vinho, mas aquele líquido que preenchia a boca e complementava a refeição era certamente um Soave ou um Friulano. A refeição sem ele não seria a mesma coisa nem de longe.
Quando a noite se aproximou, caminhamos até a Chiesa di San Vidal, uma igreja histórica que, embora discreta por fora, é um importante ponto de referência para a música em Veneza. A igreja tem uma torre sineira de 29 m. Era parte do projeto original de 1084 e foi reconstruída, assim como toda a igreja, após um incêndio em 1105. Foi restaurada novamente em 1347 e novamente em 1680. A evidência desses redesenhos pode ser vista na inclusão de uma cornija do século XII e um relevo em pedra de São Gregório instalado acima de uma porta lateral. Outros trabalhos de restauração adicionais foram feitos em 1902 e 2000, e nos dias atuais, a igreja é especialmente associada ao compositor Antonio Vivaldi.
O célebre compositor, conhecido como “Il Prete Rosso” por causa de seu cabelo ruivo, foi ordenado padre em 1703, mas logo se dedicou à música, uma paixão que o levou a compor algumas das obras mais icônicas do período barroco. Vivaldi ensinou música no Ospedale della Pietà, uma instituição para meninas órfãs em Veneza, onde desenvolveu importantes projetos didáticos e compôs muitas de suas obras, incluindo as “Quatro Estações”. Sua relação com a Igreja Católica, no entanto, era complexa. Apesar de sua condição de sacerdote, Vivaldi frequentemente se envolvia em tensões com as autoridades eclesiásticas devido ao seu estilo de vida e à sua abordagem inovadora da música.
Naquela noite, assisti a uma apresentação do Interpreti Veneziani, uma camerata local que se destaca pela precisão e intensidade de suas interpretações. Sob a liderança do violoncelista Davide Amadio, o grupo executou as “Quatro Estações” com uma sinergia e clareza impressionantes. Amadio, natural de Veneza, construiu uma carreira sólida, participando de várias orquestras internacionais e se estabelecendo como um dos principais violoncelistas barrocos da sua geração.

A interpretação do “Verão” foi especialmente notável, com as tempestades e trovões recriados através das cordas do violoncelo de Amadio naquelas obras que tem o violino como protagonista. Os pianíssimos, executados com precisão, escancaravam o domínio técnico e expressivo do grupo. A acústica da Chiesa di San Vidal, com seu design arquitetônico favorecendo a clareza sonora, amplificou os detalhes da performance, proporcionando uma experiência auditiva nítida, imersiva e contemplativa.
Embora Vivaldi não tenha composto diretamente para a Chiesa di San Vidal, suas obras encontram neste espaço uma ressonância especial. A igreja, com seu ambiente histórico e acústica excepcional, se tornou um local ideal para a execução das complexas e dinâmicas composições de Vivaldi.
Tanto o Conservatorio Benedetto Marcello quanto a Chiesa di San Vidal enfrentaram desafios ao longo dos anos. O conservatório, por exemplo, lida com a necessidade constante de manutenção do histórico Palazzo Pisani, um edifício magnífico, mas que exige cuidados contínuos devido à sua antiguidade e complexidade estrutural. Além disso, há a constante luta para manter a qualidade do ensino e atrair talentos em meio a um cenário global cada vez mais desinteressado e ao mesmo tempo competitivo. A Chiesa di San Vidal, como muitas igrejas antigas em Veneza, também sofre com os efeitos do tempo e das inundações periódicas que assolam a cidade. A necessidade de restaurar e manter tanto a estrutura quanto a acústica original da igreja representa um desafio significativo.
Apesar desses desafios, esses dois templos permanecem como pilares inabaláveis da cultura veneziana. São locais que não apenas preservam, mas também renovam a herança musical da cidade, garantindo que as futuras gerações continuem a ter acesso a experiências incomparáveis. Estes dois marcos são guardiões de uma tradição vital não apenas para Veneza, mas para o mundo da grande música como um todo.
Jaime Lourenço
