Do Seridó para Champagne: Sara Mattei, a potiguar que vem conquistando espaço nas vinícolas de Champagne
Em fevereiro deste ano, conheci Sara Mattei, que estava de férias no Brasil. Ela foi nO Poeta acompanhada do marido, Pierre, e do irmão e cunhada, Sileno e Manuela. Ao conhecer sua família e ouvir sua história, senti que valia a pena trazer essa inspiração para você, leitor. Confira a entrevista a seguir.
1. Conte-nos sobre sua infância em Caicó. O que a motivou a buscar uma carreira no mundo dos vinhos, algo tão diferente da nossa realidade local?
Minha infância em Caicó foi repleta de momentos de pura felicidade, especialmente durante a festa de Santana, quando toda a família se reunia na casa da minha querida avó Iracema. A companhia dos meus tios e primos tornava tudo ainda mais especial. Caicó sempre foi meu porto seguro, o lugar onde a família se encontrava e onde minhas raízes se aprofundaram. O mundo dos vinhos veio bem depois, uma história que começou anos mais tarde, distante, mas com um sabor tão marcante quanto aqueles dias felizes no Seridó.
2. Como foi sua trajetória inicial no mundo do vinho? Quais foram as principais dificuldades e desafios que você enfrentou ao sair do Brasil para conquistar um espaço nesse mercado?
Minha trajetória no mundo do vinho começou por pura curiosidade, mas rapidamente se transformou em uma paixão que definiu minha carreira. O desejo de explorar e compreender melhor esse universo me levou a buscar uma formação sólida, por isso decidi seguir todos os níveis do WSET até alcançar o diploma mais avançado. Essa jornada de aprendizado foi essencial para moldar meu conhecimento e me preparar para os desafios da profissão. Quando decidi expandir minha carreira internacionalmente, sabia que enfrentaria grandes desafios. A barreira da língua foi uma das primeiras dificuldades, pois não dominar o idioma local limitava minha comunicação e interação no início. Além disso, a ausência de uma rede de contatos profissionais sólida no exterior tornou a adaptação ainda mais desafiadora. No entanto, essas dificuldades me incentivaram a persistir, buscar novas conexões e continuar me especializando para conquistar meu espaço no mercado internacional de vinhos.
3. O que a levou a escolher as certificações ABS e WSET como parte da sua formação? Como esses cursos moldaram sua visão e abordagem no universo dos vinhos?
A ABS foi minha porta de entrada no mundo dos vinhos, oferecendo uma base sólida que despertou minha paixão pelo tema. Escolhi essa certificação por sua abordagem acessível e prática, focada no serviço do vinho e na experiência direta com o produto. No entanto, à medida que meu interesse crescia, senti a necessidade de uma formação mais técnica e abrangente, o que me levou a optar pelo WSET. Essa escolha foi motivada pelo desejo de aprofundar meu conhecimento, especialmente em aspectos como a degustação sistemática, marketing e o comércio internacional de vinhos. A ABS me proporcionou uma visão generalista e prática do mundo dos vinhos, com foco na hospitalidade e no serviço, o que foi fundamental para minha introdução ao setor. Por outro lado, o WSET expandiu minha perspectiva, permitindo uma compreensão mais aprofundada de toda a cadeia de valor, desde o vinhedo até o ponto de venda. Essa formação técnica e sistemática não só aprimorou minhas habilidades de degustação, mas também me capacitou a analisar o mercado de vinhos de forma mais estratégica, integrando aspectos comerciais e internacionais em minha abordagem.
4. Conquistar o WSET Diploma é um marco importante na carreira de qualquer profissional de vinhos. Como foi essa experiência para você? Quais foram os momentos mais desafiadores e gratificantes dessa jornada?
Cursar o WSET Diploma foi uma jornada desafiadora e transformadora do início ao fim. A exigência é alta, com uma média de aprovação de apenas 50%, o que por si só já torna essa formação um verdadeiro teste de determinação e resiliência. Para mim, essa experiência foi uma prova constante de superação, onde cada etapa me impulsionou a expandir meus limites e aprofundar meu conhecimento no mundo dos vinhos. Os momentos mais desafiadores foram, sem dúvida, os exames. Responder questões discursivas de forma rápida e precisa, especialmente em inglês, que não era minha língua nativa, exigiu concentração e preparo intensos. No entanto, esses desafios tornaram os momentos de conquista ainda mais gratificantes. Receber as notificações de aprovação foi uma sensação indescritível, coroada pelo dia da graduação no Guildhall em Londres—um momento de realização plena, que me fez sentir que todo o esforço valeu a pena.
5. Como surgiu a oportunidade de trabalhar na Moët & Chandon? Quais foram as lições mais valiosas que você aprendeu durante seu tempo lá?
A oportunidade de trabalhar na Moët & Chandon surgiu de forma inesperada, através de uma oferta de emprego que encontrei na internet. Decidi me candidatar e, para minha alegria, fui aceita. Esse foi um momento decisivo na minha carreira, que me abriu as portas para o universo das grandes maisons de Champagne. Durante meu tempo na Moët & Chandon, aprendi lições inestimáveis. Compreendi a profunda importância histórica desta Maison, sua influência no desenvolvimento da região de Champagne e o papel que desempenha na preservação das tradições locais. Além disso, vivenciei o valor imensurável de uma marca icônica, reconhecida mundialmente, e como cada detalhe contribui para manter sua reputação e prestígio ao longo dos séculos.
6. O que a motivou a fazer a transição para a Nicolas Feuillatte? Como você descreveria o seu papel atual e os desafios que enfrenta na empresa?
O que me motivou a mudar para a Nicolas Feuillatte foi o desejo de expandir meu papel e desenvolver uma experiência mais completa para os clientes. Na Moët & Chandon, minha principal responsabilidade estava focada nas degustações, mas eu queria atuar de forma mais ampla, proporcionando uma imersão total, desde o conhecimento do processo de produção até a degustação final. Essa transição me ofereceu a oportunidade de explorar novos aspectos do atendimento e criar conexões mais profundas com os visitantes. Atualmente, meu papel na Nicolas Feuillatte envolve receber os clientes, guiá-los pelo site de produção e apresentar cada etapa do método de elaboração do Champagne, culminando em uma degustação e venda dos nossos produtos. O maior desafio é criar uma experiência que equilibre o ensino sobre a complexidade do processo de produção com a criação de uma conexão emocional com o visitante. Meu objetivo é que eles não apenas entendam a tradição e o trabalho envolvidos, mas também desenvolvam um desejo genuíno de consumir e fidelizar-se à marca.
7. Como é viver e trabalhar na região de Champagne? Quais aspectos culturais e profissionais você mais valoriza nesta experiência?
Viver e trabalhar na região de Champagne é uma experiência marcada pela tranquilidade e pelo charme de uma vida pacata, cercada pela cultura da vinha e pelo luxo das grandes maisons de Champagne. É um lugar onde a tradição e a excelência se encontram em cada detalhe, e onde o ritmo da vida é profundamente conectado ao ciclo das videiras e à produção do Champagne. O que mais valorizo nesta experiência é o profundo respeito pelas pessoas envolvidas na cultura da vinha e na produção do Champagne. Cada etapa, desde o cultivo das uvas até o produto final, reflete o orgulho e a dedicação desse povo à sua terra. Para mim, é extremamente gratificante fazer parte de uma atividade que não apenas celebra a tradição, mas também fortalece a identidade cultural da região. Contribuir para essa herança e ver o impacto positivo que o Champagne tem na vida das pessoas locais é algo que considero inestimável.
8. Quais são, na sua opinião, as principais diferenças entre as casas de Champagne, como a Moët & Chandon e a Nicolas Feuillatte, em termos de filosofia de produção e mercado?
A Moët & Chandon é reconhecida mundialmente como a líder de vendas no mercado de Champagne, com uma filosofia de produção focada na consistência e na tradição. A assinatura da Moët & Chandon é o uso das três principais uvas de Champagne—Pinot Noir, Chardonnay e Meunier—em 100% de seus blends. A casa possui cerca de 25% de vinhedos próprios e complementa sua produção por meio de contratos de compra de uvas com outros proprietários de vinhedos, uma prática comum entre as grandes maisons. O mercado da Moët & Chandon é amplamente voltado para a exportação, refletindo sua posição global. Por outro lado, a Nicolas Feuillatte, embora seja a terceira marca mais vendida no mundo, opera de maneira diferente, sendo uma cooperativa. Todo o seu suprimento de uvas provém dos membros da cooperativa, eliminando a necessidade de comprar uvas de terceiros. A filosofia de produção da Nicolas Feuillatte é mais flexível e diversificada, utilizando as três principais uvas de Champagne de maneiras variadas. A casa faz blends com as três uvas, combinações com duas uvas, e até mesmo blends com uma única variedade, como no caso do Blanc de Blancs com Chardonnay e Blanc de Noirs com Pinot Noir. O mercado da Nicolas Feuillatte é mais focado no mercado interno, o que reflete uma estratégia diferenciada em relação à Moët & Chandon.
9. Quais são seus planos para os próximos anos? Existe algum projeto específico que você gostaria de desenvolver na região de Champagne ou em outro lugar?
Nos próximos anos, meu objetivo é concretizar o sonho de ter um negócio próprio na região de Champagne ou em outra região vitivinícola. Quero criar algo que reflita minha paixão pelo vinho e pela hospitalidade, unindo esses dois mundos de maneira autêntica e envolvente. Tenho um projeto específico em mente: gostaria de desenvolver um serviço de enoturismo receptivo voltado para o público brasileiro, oferecendo uma experiência completa que inclua hospedagem e roteiros particulares personalizados. A ideia é proporcionar aos visitantes uma imersão profunda na cultura do vinho, permitindo que vivenciem a magia das vinícolas e conheçam de perto os processos de produção, tudo isso com um toque pessoal e atendimento exclusivo.
10. Que conselhos você daria para jovens, especialmente os que vêm de lugares ainda pouco expressivos na produção de vinhos, que sonham em construir uma carreira internacional neste setor?
Meu conselho é buscar uma formação internacional sólida, como a WSET, que hoje é amplamente valorizada e reconhecida, especialmente em regiões como Champagne. Além disso, é essencial dominar o inglês e a língua do país onde você pretende trabalhar, pois a comunicação é fundamental nesse setor. Ter uma experiência prévia na área também faz toda a diferença. Acima de tudo, é crucial ter muita determinação e paixão pelo que faz, pois esses fatores serão sua maior motivação para enfrentar desafios, persistir e progredir na carreira internacional.
11. Olhando para sua trajetória, qual legado você espera deixar para a indústria de vinhos e para sua terra, Caicó?
Para a indústria de vinhos, desejo deixar um legado que valorize profundamente o terroir—esse conjunto único de características que torna cada vinho especial. Quero inspirar a busca contínua pelo conhecimento, encorajando o estudo e a observação do que faz sucesso em outras regiões vinícolas renomadas, adaptando essas lições ao nosso contexto. Para minha terra natal, Caicó, meu legado seria o desejo pela descoberta e o amor pelo aprendizado, algo que minha avó Iracema sempre me inspirou. Assim como ela viajava pelo mundo através de seus livros, quero que as pessoas de Caicó, especialmente os jovens, sintam essa mesma curiosidade e paixão por explorar novos horizontes, seja na cultura, na educação ou em suas próprias vidas.
12. Se você pudesse voltar no tempo e dar um conselho à Sara que estava começando sua carreira, o que diria?
Eu diria: acredite nos seus sonhos com todo o coração e abrace cada oportunidade de aprender como uma nova aventura. Nunca subestime o poder do seu entusiasmo e da sua curiosidade, pois eles serão o combustível que te levará mais longe do que você imagina. Mantenha a chama da paixão acesa, celebre cada conquista, por menor que seja, e lembre-se sempre: o aprendizado é um caminho sem fim, cheio de descobertas e alegrias. Confie em você e permita-se voar!
Sara Cirne Trindade Mattei é graduada em Turismo e possui uma pós-graduação em Gestão Empresarial. Ela é Sommelier pela ABS-SP e detentora do WSET Level 4 Diploma, conferido pela WSET London School.
Sara foi a fundadora da SBAV São José dos Campos, uma filial da SBAV São Paulo, onde liderou iniciativas voltadas para a educação, degustações e eventos relacionados ao mundo do vinho e ao comércio. Sua experiência profissional inclui o trabalho como consultora de vendas na Grand Cru, em Florianópolis, SC, e atuação na área comercial da Vinícola Thera, também em SC, com foco na região Sul do Brasil. Além disso, Sara acumulou experiência internacional, trabalhando como sommelier assistente no renomado restaurante Relais & Châteaux L’Arnsbourg, detentor de uma estrela Michelin, na França, e como sommelier guia na prestigiada Maison de Champagne Möet & Chandon. Atualmente, Sara desempenha a função de guia de visitas na Maison de Champagne Nicolas Feuillate, situada na região de Champagne, França.
