10 de fevereiro de 2026
Crônicas

O fascínio do Etna e o charme de Taormina: O grande vulcão da Sicília e seus vinhos elegantes

Nossa viagem pela Sicília durou 18 dias explorando a ilha de carro. Uma experiência que nos permitiu vivenciar a diversidade de paisagens, culturas e sabores que a região oferece.

Falarei nos próximos domingos sobre os primeiros destinos, a começar por Palermo, a capital vibrante e caótica, onde as ruas são um misto de tradições árabes e barrocas. De lá, seguimos para Cefalù, com sua impressionante catedral normanda e praias de tirar o fôlego. Depois, passamos por Erice, uma pequena cidade medieval no topo de uma montanha, envolta em névoas. Em Marsala, fomos recebidos pelos vinhedos que produzem o famoso vinho fortificado, cujas adegas parecem santuários históricos. Agrigento nos levou ao passado com o Vale dos Templos, um sítio arqueológico de importância mundial, onde as colunas dóricas ainda desafiam o tempo. Trapani, com suas salinas e moinhos de vento, revelou a delicada arte de produzir sal marinho há séculos. Siracusa, por sua vez, encantou com a ilha de Ortígia e suas ruas de pedra carregadas de memória grega. Piazza Armerina trouxe a Villa Romana del Casale, com seus mosaicos bem preservados, testemunhas silenciosas do esplendor romano, além de um jantar memorável que estou preparando uma crônica exclusiva somente para ele. Por fim, chegamos a Taormina, a cidade suspensa entre o mar e o céu, nosso assunto de hoje, que foi nossa última parada antes de explorar o Etna.

Quando chegamos em Isola Bella, a ideia era somente parar para contemplar a beleza deste pequeno paraíso costeiro. As águas cristalinas e a vegetação exuberante nos cativaram com uma paz inesperada, tão serena que a gente tem mesmo é que ficar calado e somente observar. Depois de um banho de mar, almoçamos no restaurante La Baia Taormina, situado à beira-mar, onde o sabor fresco do polvo grelhado foi complementado por um Etna Bianco local, feito da uva Carricante, com uma mineralidade expressiva e uma acidez peculiar, típica de um terroir vulcânico.

Em Taormina, uma cidade situada nas encostas do Monte Tauro, fomos cativados pelas vistas panorâmicas e pela atmosfera que combina elegância e história. Caminhamos pela Corso Umberto, a principal rua, repleta de lojas, cafés e galerias de arte. Foi lá que conheci Valerio Villafranca, um pintor local que conviveu com Picasso na Espanha. Em nossa conversa, após vermos todas as suas fotos com o célebre amigo Pablo, com a voz cansada, ele compartilhou sua visão sobre o ensino de arte, dizendo que “o papel do professor não é ditar o que ou como pintar, mas despertar nos alunos o desejo de criar livremente”. Suas palavras ecoaram em minha mente enquanto caminhávamos até o Teatro Antico di Taormina, um anfiteatro greco-romano do século III a.C. que oferece uma vista espetacular do Mar Jônico e do Etna ao fundo.

Outro ponto alto foi o Giardino Pubblico, com suas alamedas sombreadas e esculturas, ideal para um momento de descanso e reflexão antes de nos prepararmos para a aventura do dia seguinte: o Monte Etna. Esse vulcão ativo, sempre presente no horizonte, domina a paisagem do leste da Sicília. Pegamos a via A18 e posteriormente a E45 para depois entrar na sinuosa SP92 cheia de vinhedos em meio às curvas e ladeiras. O Etna é tão imponente que fica na nossa vista por quase todo o trajeto que dura aproximadamente 70 minutos. Para subir, pegamos um bondinho até o cume, onde a fumaça constante do vulcão alerta para sua atividade incessante. Lá de cima, avistamos o Mar Jônico, as crateras antigas e as extensas plantações de videiras que se estendem pelas encostas.

Renata, Déborah e Jaime

A região do Etna se destaca também por sua produção vinícola, sendo uma DOCG reconhecida pela alta qualidade de seus vinhos, especialmente os elaborados com as uvas Nerello Mascalese e Carricante. A crítica Jancis Robinson destacou os vinhos da região como “exemplos de elegância e profundidade, com uma complexidade que raramente se encontra em outros lugares”. Vinícolas como Benanti e Passopisciaro têm se destacado internacionalmente, com vinhos premiados que trazem à tona a singularidade do terroir vulcânico.

Após explorar o Etna, retornamos a Taormina, onde o clima começou a mudar drasticamente. O céu escureceu, e uma densa neblina tomou conta da cidade, logo seguida por uma inesperada chuva de granizo. Estávamos a poucos metros do nosso Airbnb quando, inesperadamente, começamos a tomar pedradas (de gelo) na cabeça. Foi drástico, divertido e com certeza não esqueceremos.

O Etna, além de ser uma força natural imponente, é um dos motores do turismo na Sicília, atraindo milhares de visitantes todos os anos. A produção de vinhos em suas encostas também vem crescendo, colocando a região no radar dos enófilos ao redor do mundo. Com sua mistura de história, cultura e paisagens dramáticas, o leste da Sicília é um destino que desperta o fascínio e a curiosidade, entregando experiências extraordinárias para quem se aventura por suas estradas.

Voltarei.

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