16 de dezembro de 2025
Crônicas

Rótulos? Somente nas garrafas

Outro dia, em São Paulo, vi uma espectadora de uma masterclass tomar um “se ligue” do produtor porque mencionou “Velho Mundo” quando se referia a um vinho italiano. De lá pra cá, comecei a perceber que os termos “Velho Mundo e Novo Mundo” estão mesmo caindo em desuso. Os periódicos já começam a substituir esses termos por “hemisfério norte” e “hemisfério sul” com naturalidade, como se sempre tivesse sido assim.

Essas expressões, Velho Mundo e Novo Mundo, marcaram gerações de profissionais e apreciadores. Fizeram parte da linguagem técnica do vinho e ajudaram a organizar o conhecimento por décadas. O Velho Mundo era associado à tradição, à legislação mais rígida, ao uso mais contido da madeira e à influência direta do clima e do solo na expressão do vinho. O Novo Mundo vinha com mais liberdade, vinhos mais frutados, intervenções tecnológicas mais evidentes, um olhar voltado ao mercado.

Mas o tempo passou. E com ele, essas fronteiras começaram a perder sentido. Os estilos se misturaram, as referências se multiplicaram, as técnicas se cruzaram. Hoje é possível encontrar um vinho leve e direto vindo do sul da França, e um Pinot Noir elegante e discreto nas encostas do Chile. A linguagem que antes ajudava a explicar, agora muitas vezes limita.

Além disso, há a questão da percepção. A palavra “velho” carrega um peso que nem sempre corresponde à realidade dos produtores. Muitos deles seguem inovando, ajustando práticas, alcançando novos mercados. E o tal “novo” já não é tão novo assim. Regiões como Mendoza, Stellenbosch ou Marlborough acumulam experiência, solidez e reconhecimento internacional.

A troca por hemisfério norte e hemisfério sul tem ganhado espaço justamente por isso. É geográfica, direta e descomplicada. Não carrega julgamento. Informa a localização, não a idade. E isso basta.

Essa mudança não apaga a história, nem despreza o conhecimento acumulado. Pelo contrário, reconhece que o mundo do vinho se transformou, e que a linguagem deve acompanhar esse movimento.

Gosto desse caminho. Ele simplifica, sem empobrecer. Amplia o olhar, sem diluir a identidade. Deixa espaço para o estudo, para a curiosidade e para a experiência de quem prova. E nos lembra que rótulos, os que realmente importam, devem ficar nas garrafas.

O resto é conversa, taça na mão, e o prazer de continuar descobrindo.

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