15 de abril de 2026
Rotas

Leonardo da Vinci, o Codex Atlanticus e uma vinha esquecida em Milão

Leonardo da Vinci teve um vinhedo. Sim, o mesmo cara das máquinas voadoras, da Mona Lisa, dos projetos impossíveis. Também cuidava de uvas.

Eu me deparei com isso enquanto lia sobre o Codex Atlanticus, um caderno gigantesco, com mais de mil páginas, onde ele rabiscava de tudo. Engenharia, anatomia, arquitetura, botânica, astronomia. E entre uma ideia de helicóptero e outra, lá estavam algumas observações sobre vinhas.

Esse caderno está guardado na Biblioteca Ambrosiana, bem no centro de Milão. Dizem se tratar de um lugar silencioso, cheio de sombra e de cheiro de madeira e papel antigo. Quando estive em Milão, fui ao Castelo Sforzesco na expectativa de encontrar tudo a respeito de Leonardo da Vinci, mas “passei batido” quanto à biblioteca, que fica pertinho. Ao saber do Leonardo viticultor, me dei conta de que, mesmo no meio da sua loucura genial, ele também prestava atenção no que acontecia debaixo da terra. Anotou coisas sobre poda, sobre a direção dos ventos nos vinhedos, sobre como a água deveria correr entre as plantas. Nada aleatório.

Em 1498, enquanto trabalhava na pintura da Última Ceia, Leonardo ganhou um vinhedo de presente do duque Ludovico Sforza. Ficava bem atrás do convento de Santa Maria delle Grazie, onde a pintura ainda está. O lugar ficou esquecido por muito tempo. Só em 2015 pesquisadores foram lá, estudaram o solo, analisaram restos de raízes antigas e conseguiram replantar a mesma variedade de uva que provavelmente crescia ali: Malvasia di Candia Aromatica.

Hoje, a Vigna di Leonardo está aberta para visitação. Você pode caminhar entre as parreiras, olhar a igreja logo ao lado, e imaginar o gênio ali, pensativo, mexendo nas folhas, talvez imaginando uma nova máquina de voar ou um novo jeito de prensar uvas.

Leonardo via o mundo como um sistema só. Ele misturava arte com ciência, engenharia com natureza. Tudo tinha conexão. E o vinho, quando a gente pensa bem, também é isso. Uma mistura de técnica e tempo, de escolha e acaso. Algo que a gente cultiva, mas também precisa deixar acontecer.

No meio de tanta invenção, tinha espaço também pra uma videira crescendo em silêncio nos fundos da casa de um gênio.

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