A escrita investigativa de Hugh Johnson: “No tempo dos Faraós”
Sempre que eu pensava no Egito Antigo, as primeiras imagens que vinham na cabeça eram pirâmides, sarcófagos, desertos e deuses com cabeças de animais. De uns poucos anos pra cá, após ler e reler Hugh Johnson, fui descobrindo o quanto os egípcios contribuíram para a evolução do vinho. Assim como contribuíram no desenvolvimento da matemática, engenharia, astronomia e medicina, os egípcios desenvolveram técnicas agrícolas com sistemas de irrigação, canais e ferramentas que auxiliaram e mantiveram a bebida ali, ocupando um lugar nobre tanto nas cerimônias religiosas quanto nos banquetes da elite.
O vinho não nasceu no Egito, é verdade. As primeiras videiras domesticadas vieram de regiões como o Cáucaso, a Mesopotâmia e a Anatólia. Mas os egípcios foram mestres em transformar o vinho em algo muito maior do que uma bebida. Eles documentaram o processo, deram significado religioso e político pra ele, e criaram toda uma estética em torno da cultura do vinho que, de certo modo, influenciou até os gregos e romanos depois.

O povo egípcio bebia mesmo era cerveja, feita de cevada e consumida quase como um alimento. Mas o vinho era coisa de gente grande. Só faraós, nobres, altos funcionários do templo e sacerdotes tinham acesso. E o mais fascinante é como o vinho era tratado: ele era servido como oferenda aos deuses, era parte dos rituais funerários e até das festas religiosas que celebravam as estações, a fertilidade e o renascimento. Era bebida pra quem estava vivo, mas também pra quem já tinha partido. Vinho era posto dentro das tumbas, cuidadosamente armazenado em ânforas com inscrições que hoje nos dizem muito sobre o Egito e seus hábitos. Os arqueólogos já encontraram potes (pasmem) com o nome do vinicultor, o ano da produção, o tipo do vinho e a procedência. Detalhe: isso há mais de 3 mil anos. Sim, o Egito já tinha rótulo antes de Bordeaux sonhar em existir.

E você deve estar se perguntando: mas como eles faziam vinho no meio do deserto? O segredo estava no Nilo. As vinhas eram cultivadas principalmente no delta do rio, onde o solo era mais úmido e fértil. E o processo era todo braçal: colheita manual, pisa das uvas em tanques de pedra, fermentação em ânforas de barro e técnicas bem rudimentares de vedação com barro ou resina. Apesar de tudo isso parecer muito distante do que conhecemos hoje como vinificação, algumas práticas egípcias já apontavam pra um certo refinamento. Havia uma noção de colheita seletiva, de vinhos mais ou menos nobres, e até algum tipo de envelhecimento.
Aqui vão algumas curiosidades que Johnson traz no capítulo “No Tempo dos Faraós“:
–O vinho tinto era associado a Osíris, o deus da morte e da regeneração. Eles chamavam o vinho de “sangue de Osíris”. Forte isso.
–Os egípcios importavam vinhos da Palestina e da Síria e consideravam esses vinhos de fora mais finos que os da casa. Comércio de luxo mesmo.
-As festas em homenagem a Osíris envolviam muito vinho e provavelmente inspiraram os famosos bacanais greco-romanos que vieram depois.
-Já foram encontradas ânforas em tumbas reais que ainda conservam traços químicos de vinho, algumas com mais de 3 mil anos.
Outra coisa legal é perceber que, mesmo com todo esse misticismo e religiosidade em torno do vinho, o egípcio também sabia curtir a bebida por prazer. Em algumas representações nas tumbas, vemos cenas de banquetes, músicos tocando, mulheres dançando e copos sendo erguidos. Era celebração. O vinho também era alegria, não só sacrifício.
E o mais impressionante de tudo talvez seja isso: o vinho sobreviveu ao tempo não só fisicamente, nas ânforas e nos resíduos preservados, mas também como símbolo. Johnson mostra que muito daquilo que hoje a gente vê como “cultura do vinho” já estava presente na forma como os egípcios tratavam a bebida, como algo sagrado, mas também sensorial, emocional e social.

Johnson tem um estilo de escrita investigativo, e esse capítulo trás para nós apreciadores e ávidos leitores, uma sensação estranha de continuidade. De perceber que o vinho já era uma linguagem de afeto, de poder e de conexão com algo maior, mesmo muito antes de Cristo, muito antes de Roma, muito antes de Bordeaux.
O autor mistura arqueologia, religião, prazer e história, e mostra, sem firula, que o vinho já era uma bebida sofisticada desde os primórdios da civilização.
