Os vinhos que acompanharam Napoleão da glória ao exílio
Muita gente conhece Napoleão Bonaparte como estrategista militar, imperador francês e uma das figuras centrais da história europeia. Mas quase ninguém associa o nome dele a uma rotina que atravessava campos de batalha, reuniões diplomáticas e até o exílio: o hábito de beber vinho.
Sim, Napoleão tinha seus vinhos preferidos. E mais do que isso, o vinho fazia parte da sua vida com uma constância quase religiosa. Não se tratava de um luxo ocasional, mas de um item presente nas refeições, nas campanhas e nos momentos mais íntimos do imperador.

O vinho que ele mais gostava era um tinto da Borgonha, da região de Gevrey-Chambertin. Produzido com a uva Pinot Noir, esse vinho é conhecido pelo perfil elegante, profundo e sutil. Não é um vinho de força bruta, mas de precisão e tensão, como um discurso bem calculado. Napoleão pedia regularmente que levassem garrafas de Chambertin com ele para onde fosse, mesmo durante campanhas militares. E há registros de que ele o consumia diluído em água, algo comum entre oficiais na época, tanto por hábito quanto por questões de higiene.
Mas o Chambertin não era o único vinho presente no seu cotidiano. Embora simples em gostos pessoais, Napoleão compreendia bem o valor simbólico do vinho. Sabia usá-lo como ferramenta política e diplomática. Um exemplo claro disso era o uso do Champagne em celebrações públicas e eventos formais. Ele mesmo não era um grande entusiasta do espumante, mas reconhecia o prestígio que ele carregava. Sob seu governo, a produção de Champagne ganhou força e visibilidade. A casa Moët, inclusive, se tornou fornecedora da corte imperial. E depois de algumas vitórias, Napoleão fazia questão de brindar com Champagne, especialmente diante da tropa ou da aristocracia.

Nos bastidores, porém, outros vinhos apareciam. Um deles era o Meursault, branco também da Borgonha, feito com a uva Chardonnay. Diferente de muitos brancos da região, o Meursault é um vinho com menos acidez e mais cremosidade, um perfil mais envolvente do que cortante. Era comum que Napoleão o consumisse em jantares privados ou reuniões administrativas. Era o vinho das decisões discretas, das conversas fora dos holofotes.
Mas talvez o rótulo mais surpreendente ligado a Napoleão seja o Vin de Constance, da África do Sul. Durante o seu exílio na ilha de Santa Helena, longe de tudo e de todos, Napoleão requisitava regularmente garrafas desse vinho doce, feito com a uva Muscat de Frontignan. Era um vinho raro, aromático, que já fazia sucesso entre as cortes europeias. Ele o consumia em pequenas doses todos os dias. Para muitos, era o único prazer verdadeiro que lhe restava naquele isolamento forçado.

Curiosamente, cada um desses vinhos parece ter representado uma fase da vida de Napoleão. O Chambertin era o vinho das campanhas militares e do poder em movimento. O Meursault estava presente nos momentos de organização e rotina administrativa. O Champagne servia como símbolo de vitória e prestígio em ambientes públicos. E o Vin de Constance fechava o ciclo como lembrança doce e silenciosa de uma vida que havia se afastado do trono.
A relação de Napoleão com o vinho não era extravagante, mas constante. Ele não era um colecionador ou um hedonista. Bebia com regularidade, com disciplina, com um tipo de vínculo quase funcional. Mas é justamente isso que torna sua história com o vinho tão interessante.
Hoje, rótulos como o Chambertin e o Vin de Constance ainda carregam essa memória. O Chambertin continua sendo um dos grandes nomes da Borgonha, associado à nobreza e à elegância. Já o Vin de Constance, que havia desaparecido por décadas, foi resgatado e voltou a ser produzido a partir dos anos 1980. Em muitas lojas, ele ainda é descrito como “o vinho de Napoleão”.
Para quem estuda vinho, essa conexão entre personagem e garrafa ajuda a entender como o vinho vai muito além do sabor. Ele é cultura, memória, gesto e também identidade. No caso de Napoleão, era uma extensão do que ele vivia, enfrentava ou lembrava. Saber disso é colocar um pouco mais de história no cotidiano e perceber que o vinho, mesmo entre guerras e exílios, sempre encontrou seu espaço.
