Vin du Brésil: o dia em que o Brasil resolveu parar de pedir licença
O que aconteceu na última segunda feira (01/12), em Paris, foi bem mais do que uma degustação bonitinha para foto. Foi o Brasil finalmente batendo na porta certa e dizendo “provem”. Para mim, isso tem um peso enorme: técnico, simbólico e estratégico.
Sinceramente: não nos serve mais essa história de “vinho brasileiro bacana, mas ainda tímido”. A iniciativa Vin du Brésil veio pra levantar a mão e dizer alto: “Aqui estamos nós. Julgue.” Porque hoje temos técnica. Temos terroir. O que faltava, e ainda falta para muitos, é atitude. Pois bem: atitude é exatamente o que esse grupo mostrou.

Quem está bancando o tiro:
• O francês Benoit Manthurin, que vive no Brasil e resolveu montar uma carta 100% nacional no seu Esther Rooftop. Ele não fez isso por modinha: ele aposta de verdade no que serve.
• O italiano-brasileiro Giovanni Montoneri, que enxerga o momento técnico do Brasil como oportunidade real, não para exportar só volume, mas identidade.
• E o francês Xavier Vankerrebrouck, jornalista e influencer que aceitou organizar a prova em Paris, abrindo portas de opinião que muitos de nós só sonhamos em bater.

Uma vinícola sozinha não levantaria esta bandeira. Isso é articulação, convicção e, acima de tudo, vontade de jogar o jogo grande.
O que me irrita, e por que essa prova não poderia demorar mais, é que até pouco tempo atrás, vinhos artesanais, de terroir, com leveduras nativas, de regiões não tradicionais, tudo isso era considerado “coisa experimental”, “alternativa”, “coisa de quem gosta de complicar”. Mas o fato é que quem chama de “experimental” talvez não tenha perfil sensorial para entender o óbvio.

O que esses produtores fizeram: viraram a mesa. Pegaram o que era “alternativo” e transformaram em competitividade real. E levaram isso para Paris, sede de quem por décadas decidiu o que é “vinho de verdade”.
Os nomes que estão representando o Brasil:
• Manus Vinhas e Vinhos (RS) — leveduras indígenas. Isso não é modismo, é identidade.
• Estrada Real (MG) — com a técnica da dupla poda, desafiando o calendário e o senso comum.
• Bárbara Eliodora (MG) — reforçando que Minas não é coadjuvante, é protagonista.
• La Grande Bellezza (RS) — elegância, terroir refinado e precisão.
• Bebber Vinhos (RS) — mostrando potencial de regiões ainda subestimadas.
• Arte Viva Vinhos (RS) — usando barricas brasileiras. Isso me diz: estamos pensando em terroir completo, com identidade nacional.

Não é conversinha de “vinho gaúcho módico” ou “vinho de exportação barata”. Estamos falando de presença, de declaração e do produtor dizendo: “Nosso vinho existe de verdade.” Ja passava da hora do vinho brasileiro parar de pedir licença e passar a exigir atenção.
A França importa milhões de hectolitros por ano. O mercado está aberto. O que estava trancado era a reputação. Isso começou a mudar com essa prova. Porque quando um vinho brasileiro é servido em Paris, o ato em si já carrega significado. E para quem, como eu, ensina vinho no Brasil, isso deve entrar no quadro como aula viva: técnica + identidade + estratégia.

E agora? Qual o próximo passo que realmente faz diferença? Fazer disso um evento isolado seria burrice. O próximo passo já existe: itinerância internacional, com rodada marcada para abril de 2026 na Itália (Roma ou Milão).
Vale avisar claramente: isso só faz sentido se for permanente. Se for só “uma prova legal para gerar buzz”, vale menos que nada. Precisamos de repetição, consistência, presença, não de flash de vaidade. Para quem viveu os altos e baixos do vinho brasileiro nos últimos anos, isso é um marco.
Se eu ficasse dando tapinha nas costas só por ser “nacional”, estaria mentindo. Mas não: hoje eu aplaudo quem teve coragem de colocar o Brasil à prova. E você, que lê isso, deveria perguntar pra quem ainda duvida: vai continuar ignorando o que está mudando, ou vai prestar atenção de verdade?
Essa galera tem meu total apoio e eu gostaria de estar lá com eles, levantando a bandeira do meu país.
