Vinho da semana: um Cinsault da Metzer que bebi em Cape Town
Tem vinho que a gente bebe e pronto. E tem vinho que fica rondando a cabeça. Esse Cinsault da Metzer caiu nessa segunda categoria. Provei no restaurante Albergine, em Cape Town, sem esperar muita coisa, mas esse danadinho me pegou de surpresa.

A Metzer é uma vinícola pequena de Stellenbosch que, ao que parece, está prestes a fechar as portas. Uma pena. O pessoal lá trabalhava com vinhas sem irrigação, as chamadas dryland vines, onde a planta se vira sozinha. A uva cresce mais concentrada, mais séria, porque tem que lutar pra achar água. Pra completar, o solo ali é um granito bem velho e todo esfarelado. Parece besteira, mas isso muda tudo no resultado final.
O vinho não era simples, mas também não tinha nada de exagerado. Tinha sim uma precisão que me chamou atenção. Aroma de fruta vermelha mais fresca, uma coisinha de terra, e aquele toque seco no final que deixa a boca querendo outro gole. Não era potente, não era pesado. Era só redondo e direto. Feito por quem sabia o que estava fazendo.

Conversei com Ralph Reynolds, sommelier do Albergine, e ele contou que o produtor gostava de trabalhar com bem pouca intervenção. Levedura da própria uva, barrica usada, nada de maquiagem. O tipo de gente que não tenta inventar moda.
O mais curioso é que esse vinho não tinha nada de espetacular no papel, mas me deixou encucado. Talvez por ser de uma vinícola que daqui a pouco nem existe mais. Talvez porque me pegou desprevenido. Ou talvez porque ele tinha um equilíbrio preciso que muitos vinhos mais caros tentam ter e não conseguem.
Enfim. Eu beberia outra garrafa fácil. Só falta achar, porque depois que a vinícola fechar, vai virar caça ao tesouro.
