15 de junho de 2026
Crônicas

Bordeaux era um pântano (sim, literalmente)

Existe um ditado famoso na Holanda que diz: “Deus criou o mundo, mas os holandeses criaram os Países Baixos.”
Pode soar exagero, mas quando a gente olha para Bordeaux, dá vontade de dar razão a eles.

A Margem Esquerda de Bordeaux só existe como grande região vitivinícola por causa dos holandeses. E não foi por acaso.

No auge do colonialismo, a Companhia das Índias Ocidentais era uma potência absurda. Estamos falando de algo que, corrigido para valores atuais, ultrapassaria 7 trilhões de dólares. Isso é mais dinheiro do que Apple, Google e Amazon juntos. Quando essa gente queria vinho, não era qualquer vinho.

Enquanto os ingleses se encantavam com os tintos mais leves (o famoso clarete, vindo principalmente da Margem Direita da Gironda), os holandeses queriam outra coisa: vinhos mais encorpados, mais estruturados, com mais potência. O problema é que esse estilo só funcionava do outro lado do estuário, numa área um pouco mais quente… e completamente pantanosa.

A solução foi bem holandesa: drenar tudo.

No século XVI, eles literalmente secaram os pântanos da Margem Esquerda, controlaram a água, prepararam o solo e plantaram vinhas onde antes não havia nada além de lama. O resultado dessa engenharia e dessa visão comercial é o que hoje conhecemos como Médoc.

É ali que surgem nomes como Margaux, Pauillac e Saint-Estèphe, denominações que hoje abrigam alguns dos vinhos mais caros, disputados e reverenciados do mundo.

Ou seja: quando você abre um grande Bordeaux da Margem Esquerda, vale lembrar que, antes da Cabernet Sauvignon, vieram os holandeses, as pás, os canais e muita ambição.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *