12 de agosto de 2026
Nota

A nudez da Xuxa 2026 não está no figurino

Desde a imensa repercussão do espetáculo “O Último Voo da Nave”, show que Xuxa realizou no último fim de semana, venho me perguntando se deveria ou não escrever sobre um tema tão improvável — e, para muitos, até desnecessário — em pleno ano de 2026. Hoje, a vontade venceu o receio. O empurrão veio do próprio algoritmo das redes sociais, que me presenteou com um sem-número de vídeos e textos de formadores de opinião que eu jamais havia visto discutindo o figurino usado pela eterna Rainha dos Baixinhos.

De “ridícula” a “bizarra”, coube quase tudo. O que parece ter faltado foi o bom senso esperado de um público 40+ que cresceu vendo aquela mesma Xuxa, vestida daquele jeito: maiôs, colantes, botas de cano alto, brilho — muito brilho. Era outro tempo. Uma década em que a liberdade conquistada era celebrada, antes de vivermos essa permanente vigilância sobre comportamentos, escolhas e aparências.

Xuxa nunca foi dona da voz mais afinada da música brasileira, nem se destacou pelo virtuosismo vocal. Mas tinha algo que poucos artistas conseguiram construir: capacidade de reunir multidões. Do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, arrastou crianças e famílias para shows históricos, como os realizados no então Machadão e no Castelão. Na Argentina, tornou-se uma verdadeira rainha, com direito até a rumores de romance com o presidente Carlos Menem.

Não se imaginava, naquele tempo, a Argentina de Milei — que, curiosamente, tem em comum com Xuxa o amor pelos cachorros. A apresentadora sempre levou às crianças mensagens de respeito à natureza e aos animais. Realizou aniversários em instituições que acolhiam crianças com deficiência e falava sobre inclusão muito antes de o tema ganhar a dimensão atual. Tudo isso enquanto usava roupas que, para alguns, eram de mau gosto; para outros, excessivamente erotizadas.

Xuxa fez filmes de conteúdo adulto, namorou personalidades como Pelé e Ayrton Senna e até carregou histórias controversas envolvendo sua relação com a empresária Marlene Mattos. Os baixinhos dos anos 80 cresceram sabendo de tudo isso — e ainda assim cantavam com ela os famosos “beijinhos, beijinhos, tchau, tchau”, dedicados “para o papai, para a mamãe e para você”. Uma tríade familiar que hoje parece se escandalizar com aquilo que sempre esteve diante dos olhos.

A Xuxa está nua. A rainha está nua.

Mas a nudez de Xuxa não está na virilha exposta ou nos glúteos sem preenchimento. Está no incômodo que parte da sociedade demonstra diante de uma mulher de 63 anos que continua ocupando espaço, dançando, criando e dizendo o que pensa.

Principalmente, está no desconforto provocado por suas posições políticas. Xuxa assumiu uma postura crítica ao bolsonarismo desde os primeiros momentos da polarização brasileira. Declarou ter rompido relações, inclusive familiares, diante de manifestações preconceituosas contra homossexuais e pessoas diferentes. Era a mesma Xuxa que muitos conheciam, agora acrescida de uma dimensão política que parte do Brasil não soube — ou não quis — aceitar.

Vieram o julgamento, a condenação pública e o cancelamento. Mas não de todos. Uma parcela dos seus antigos baixinhos, hoje adultos, preservou a memória afetiva e o bom senso. Lotou estádio para rever a musa da alegria, da fantasia e da infância.

Porque talvez a grande questão seja simples: por que uma mulher com mais de 60 anos não poderia dançar, pular, cantar e fazer seu “tindolelê, nheco-nheco” com quem quiser?

Afinal, a liberdade que encantava os baixinhos continua sendo a mesma liberdade que incomoda alguns adultos.