A PROVA FINAL: NÃO FOI GOLPE !

Algumas palavras têm a capacidade de surpreender.
E de nos deixar sem elas.
No trato com os vocábulos, simpatia é quase amor. Ou mais que ódio.
Tem as que não vemos a hora de meter numa conversa mas nunca cabem na prosódia. A ortoépia não ajuda.
As insubstituíveis não deixam outro verbo se expressar em nome delas.
Em extrema irritação, quem diz estar bravo da vida, dá a impressão que a raiva momentânea não é tanta nem tamanha.
Outras, desde a apresentação formal, dão a certeza que nunca serão usadas. Parecem traduções infelizes que ficam um tempo na moda e a gente na torcida para que venha logo outra em substituição.
Na guerra dos gêneros, tem as que fazem claras opções e não se relacionam com o sexo oposto.
Não há registros de teses, papers ou TCCs que versem ou prosem sobre empoderamento masculino. Virou palavra transgênera e em breve, dispensará o adjetivo.
Experimente o elogio a um amigo. Um desses misóginos-homofóbicos que pelas etimologias deve ser um empoderado assexuado. Ou coisa pior. Se é que exista.
Joaquim Ferreira dos Santos já no finalzinho de coluna d’O Globo, numa segunda-feira preguiçosa, há bons cinco anos, dava um desses golpes inesperados.
Dos que levam à lona até quem sem ser supremo ministro, sabe que se é golpe, não tem espera.
Sem fugir do protofascismo tupiniquim, tema que dominava a mídia, não evitou comparar o então capitão-presidente com os generalíssimos ibero-italianos, ao fazer a pergunta direta. Na lata e no título:
Qual vai ser o golpe, Bolsonaro?
Depois de passear por todos os tipos. Do de ar, pelo de vista, dos de trambiqueiros e até do de baú, concluiu que um tosco só estava impedido de dar era o golpe de mestre.
E justificou, por tratar-se de um oximoro.
A Wikipedia, mãe dos burros digitais, tascou um acento agudo na proparoxítona antes de explicar que oxímoros são encontros de palavras que se contrapõem.
E ao lado, uma da outra, fortalecem, vitaminam as sentenças. Tornam as frases, digamos, empoderadas.
Simples assim. Sem paradoxos nem antíteses.
Um ano depois, foi Chico Buarque quem retomou o tema e fez o alerta.
O tataraneto de baiano, bisneto de mineiro, neto de pernambucano, filho de paulista, ele mesmo carioca da gema, leu nas entrelinhas da história contemporânea e viu em bola de cristal que o Presidente Bolsonaro estava gostando da confusão em que nos metia, e easy rider, queria ficar mais um tempão alternando caneladas com passeios de moto.
Como não somos mesmo principiantes, como bem disse Antônio Carlos Jobim, o maestro soberano, o jeito foi tomar o lugar na dança que parece não ter fim.
Publicado em 10/06/2020, com o título Golpe de Palavras, este arremedo de crônica tem tudo para ser, pelos advogados dos réus, apensado aos autos do inquérito, como argumento irrefutável: ‘tão arrastado, não pode ser chamado de golpe’
Ou an avant tout, ou alors, an arrière.

