24 de janeiro de 2026
Memória

BEM FEITO !

O velho guitarrista cego (1904) – Pá blo Picasso – Museu de Arte de Chicago

As lições mais duras da pandemia foram dirigidas aos profissionais da área da saúde.

As estatística mostraram que  nos meses de chumbo, na primeira grande onda, 20% dos infectados, hospitalizados e mortos, eram cuidadores das doenças dos outros.

Acrescente-se, quase todas,  pessoas acostumadas a trabalhar em ambientes insalubres e pouco protegidos.

E de serem duros de abater pela doenças mais comuns e sazonais. Pelo menos, ao ponto de afastamento do trabalho.

A Covid-19 mudou comportamentos.

Os mais idosos aprenderam que não devem continuar atuando na linha de frente, em posições talhadas para  infantes.

O que não mudou com o amansamento das cepas e variantes, foi o costume que todo médico tem de opinar sobre a saúde dos colegas.

Mesmo quando não chamados aos casos.

E mesmo que o problema fuja da especialidade.

Prognósticos mais sombrios ou sugestões de tratamentos mais eficazes.

De preferência em outros centros.

Outros medalhões.

Outros países.

To be or not to be up to date.

A questão é ser e estar sempre  bem informado.

Por dentro de tudo.

Até da vida alheia.

Dos mais requisitados e atarefados, o cirurgião geral apareceu na antessala do centro cirúrgico,  pedindo para falar com a enfermeira.

Logo depois, ao solicitar a marcação de procedimento, o urologista teve a surpresa de ver um mapa cirúrgico com vários horários disponíveis. Coisa rara naquele hospital, sempre de agenda tão lotada.

O motivo da sobra de vagas foi o acidente sofrido por quem acabara de comunicar afastamento, e pedir cancelamento de todas as muitas atividades.

Por dois meses, pelo menos.

Na sala de repouso, copa e central de gossips, na hora do lanche, o infortúnio foi comentado.

Sempre em tom de lamento.

Pela inatividade.

Pela imobilização.

Pelo aparelho gessado.

Pelas muletas.

Pela fisioterapia.

Pela perda temporária da clientela.

Pelo prejuízo financeiro.

Por tudo.

Não tardaram, os detalhes e o motivo do azar.

Entre outras várias batalhas que vinha travando contra uns quilinhos e um IMC a mais, o quase sedentário, exímio operador,  procurou turbinar as atividades físicas.

Na primeira aula do esporte mal escolhido, rompeu o tendão de Aquiles.

Foi quando o recém beneficiado com as lacunas na agenda do inditoso, não se conteve e fez sua abalizada ponderação:

– É muito bem feito.
 O cara começa a ganhar um   dinheirinho a mais … e já quer jogar tênis…

A Vida (1903) – Pablo Picasso – Museu de Arte de Cleveland

(Este caso foi relatado pela primeira vez, há seis anos)

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