CADÊ O DÉCIMO?

O calendário de pagamento do governo do estado transporta, numa pequena viagem no tempo, ao ano de 2019.
Tudo por conta da falta de informações sobre a data de pagamento do décimo-terceiro salário.
Com uma diferença: desta vez, ninguém tem coragem de falar no assunto.
O medo da suspensão das redes sociais, por divulgação de fakenews, atingiu o estágio de crime por pensamento, além dos já consolidados, por palavras e obras.
Muitos acreditam que a gratificação natalina é mais uma jaboticaba.
Coisa nossa, tupinambá, sem similar em outros países.
Até o Senador Mourão viajou nessa maionese durante a campanha de 2018.
Para barões, liberais, coxinhas e endinheirados, apresentou sua ideia com palavras melíferas.
Acabar com a bonificação seria bom para todos.
Só que não.
A marola deu onda.
Quando quase arrebentava na praia, foram salvos, ele e o capitão, pelo bispo.
O Adélio.
Tudo porque no país mais rico, não há.
Como não tem lá, licença-gestante nem férias remuneradas.
Nos Estados Unidos da América, estabilidade e FGTS, ainda esperam por um Bernie Sanders.
Ou quem quer que venha a ser o primeiro number one socialista.
Lá os salários dispensam penduricalhos. E com menos impostos do Trump – o retorno – a festa continuará sendo deles, e a inveja, nossa.
No pindorama, prometido por muitos, só entrou no bolso da plebe ignara no governo de Jango, em 1962.
Na época, empresários, prefeitos e governadores diziam não ter como pagar.
Antes, quem podia, não negava.
As festas. Uma gratificação de fim-de-ano.
Voluntária, a depender da generosidade dos patrões.
Ao lado de outras reformas simpáticas ao governo trabalhista, entrou na cota dos motivos para o golpe (o de verdade) dois anos depois.
Refresco para as despesas da estação festiva, é o pagamento mais aguardado.
Diferente dos outros, não remunera diretamente o trabalho.
Percebido como um extra, destinado ao supérfluo a ser gasto com coisas prazerosas.
Direito sagrado, tão certo no fim do ano, quanto o show de Roberto Carlos, os bancos atendiam os ansiosos com a antecipação em troca de moderados juros. E podia-se fazer as compras dos presentes bem antes da black friday.
Nos tempos de inflação modelito argentino (pré-Milei), para proteger o poder de compra, passou a ser parcelado em duas vezes.
A metade queimada já nas fogueiras juninas.
Recebido com tanta expectativa e privando da intimidade, passou a ser chamado carinhosamente de décimo.
Simplesmente.
Como se mimoso apelido familiar, fosse.
Há quatro anos, foi necessário o parto de uma suplementação na maternidade da Assembleia Legislativa, para espanar a poeira da caderneta dos haveres com os servidores estaduais.
Este ano, alguém já escutou na rádio peão que o décimo só sairia da toca, se o Presidente Lula desse uma força e um jamegão.
Com o derrame presidencial, desta vez, de sangue subdural, resta pedir a intercessão de Dona Janja, a primeira-dama das causas quase impossíveis?

