24 de janeiro de 2026
Carnaval

QUEM DIRIA … XANDÃO DESCENDO A LADEIRA

Há cinco anos, o bloco carnavalesco mais irreverente do Recife anunciava que não iria sair, pela última vez, naquele  ano.

Quem pensava que  era  mais uma paródia, à moda Le Cirque, e não acreditouou nas várias derradeiras apresentações, sempre adiadas, foi surpreendido.

Era mesmo  pra valer.

Quanta Ladeira tinha cara de agremiação carnavalesca, jeito e roupa de bloco,  mas era diferente de todos os outros.

Suas performances,  em recintos fechados ou em palcos armados nas praças, a cada ano atraía mais gente.

Sempre com muita expectativa, deboche e repercussão.

O segredo de tanto sucesso eram pastiches, letras trocadas das marchinhas e hits das paradas e muita gozação com os famosos e as celebridades de 15 minutos.

Formado por músicos e compositores, atraía artistas famosos que aceitavam as co-autorias e empréstimo compulsório de suas obras.

Como quem ri de si próprio, o carnaval pernambucano era o primeiro a entrar na ciranda.

A origem do nome foi a tradução livre e sonora da música criola cubana, Guantanamera. Não se sabe se  com alguma evocação aos presos no enclave yankee na ilha comunista:

“Quanta ladeira…

Olinda

Quanta ladeira..”

Qual vassourinhas, a treta com o tradicional Elefante, virou a modinha de maior sucesso.  Um clássico do bom humor e da alegria  que acende  qualquer folião:

“Olinda, quero mijar

Aqui, no teu portão

Num aguento mais

Não arrumo lugar

Vou fazer xixi no chão

Deixa eu… só escorar

E aliviar geral

Salve o teu carnaval.”

Políticos locais sempre homenageados.
De todos os partidos.
O critério, proporcional à exposição na mídia ou ao insucesso eleitoral:

“Cadê pagode?

Cadê mamãe-sacode?

Os trios que saudavam o camarote de Cadoca.

Meu abadá caiu no esquecimento.

Que falta eu sinto do  cordão de isolamento”

Presidentes, pré e candidatos, nunca esquecidos.

De todos,  a campeã absoluta das citações foi Dilma Vana:

“A presidenta que nunca foi Santa.

Nunca foi Náutico.

Nem Sport”.

***

“Deixa eu votar

Lula disse que Dilma é a cara

Sua tara

É sentar em um o pau de arara

Deixa eu votar

Mas eu não voto nessa otara

Que parece Pedro de Lara

Essa Dilma ninguém azara

Nem doidão, nem de cara.”

Seu opositor na eleição de 2010 não foi poupado:

Serra, Serra, esse mutante,

Que aparência horripilante

Quem jamais eu votaria”

Nem a empresa de energia, no ritmo dos Beatles:

“Celpe, levei um choque… Celpe, encostei num poste… Celpe, fio desencapado… Ceeeeelpe!!”

O motivo para o fim da folia não foi bem esclarecido.

Especulou-se que tenha sido pelo excesso de fontes inspiradoras na era Bozo.                          

Houve também quem atribuísse à dificuldade de rima com o nome do Ministro da Educassão, Abraham Weintraub.

O mesmo espírito que animou o carnaval pernambucano continuou  baixando em muitos outros terreiros.

Em Belo Horizonte, estava estreando outra troça:

Quem deu, deu; Quem não deu, não Damares.

Que falta faz o Quanta Ladeira para animar em versos e ritmo de frevo, o Carnaval do Golpe do Batom.

Xandão seria uma boa rima, mas não foi a solução.

 

Gravuras de J. Borges (1935-2024)

Assista o clip:                                                   

A Globo tá demais! – LEGENDADO!

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