13 de dezembro de 2025
Comunicação

CARTAS PARA LONGE

Os Amantes (1928) – Marc Chagall – Museu Nacional de Belas Artes, Buenos Aires

Já ultrapassou a  velocidade da luz, o que há uma geração levava dias, semanas e a depender de algum empalho no caminho, mais de mês.

As cartas para destinos internacionais, mesmo com o envelope par avion, parecem hoje, que viajavam em carga de troupeiros.

Já se recebe a correspondência sem apanhá-la debaixo da porta, nem na caixa postal privativa,  no hall da agência do correio mais próxima.

Antes que o pensamento e sentimentos ganhem palavras, já sabemos que em algum lugar do mundo, não importa onde e em qual fuso horário, alguém está pensando na gente. Ou digitando

E ao contrário do que dizia a sabedoria popular, a flecha das palavras lançadas, volta. Antes que o destinatário confirme a leitura nos dois tracinhos azuis, tudo pode ser apagado. Ou explicado pelo áudio.

As correspondências viraram estilo literário de sucesso. Artistas, intelectuais e escritores transformaram cartas entre amigos, em livros.

Companheiros de longas datas e mesmo os que nunca se encontraram trocavam cartas, cuidadosamente guardadas até que algum amigo comum, ou editor, descobrisse que  os assuntos entre  caros amigos, interessava também a muitos outros prezados.

As que Sigmund Freud trocou com a filha Anna, são os fundamentos da psicanálise.

Professores estimulavam os alunos a escrevê-las, mesmo as que nunca seriam postadas.

Os de língua estrangeira iam mais longe. Conseguiam listas de endereços de   outros jovens de vários países e faziam  circular entre os que procuravam conhecer outras culturas, em viagens impossíveis, pelos olhos dos assemelhados de outras terras.

Era chic e quase obrigatório para os que levavam o estudo de línguas a sério, ter um pen pal.

Dinossauros dos sites de relacionamento, as listas em fotocópias passavam de mão em mão, trazendo poucas e essenciais informações para um  remoto futuro encontro missivo. A milhas e quilômetros de distância.

Se a idade, sexo, idiomas que falava (ou só escrevia), combinavam, começava a longa espera se do outro lado do mundo, o interesse tambem havia sido despertado.

Daquela vez, a francesa de Lyon não devia andar bem nos conhecimentos do inglês, a língua neutra, escolhida para selar a amizade. Ou teria sido o amigo da caneta daqui que havia incorrido no erro, misturando os gêneros, bem antes que formulassem tantas teorias.

Aberta a carta, toda expectativa acumulada em sucessivas negativas dos carteiros, transformada em decepção.

Na foto 3X4, a imaginada francesinha, sósia de Mylène Demongeot, já tinha até um projeto de bigodes.

E o nome dela era … Lionel.


A grande família (1963) – René Magritte – Museu Magritte, Bruxelas


(Texto original publicado há cinco anos)

 

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