14 de fevereiro de 2026
Memória

CHEIRO IGUAL SÓ TEM UM


Grupo de Bois (1935) – Lasar Segall – Coleção Beatriz Segall, São Paulo


Quando os problemas ainda estavam distantes dos
  órgãos de proteção ao meio ambiente, nem se temia  a fatal concorrência dos chineses, os curtumes só tinham de  atender às normas técnicas do Ministério do Trabalho.

A atividade, sabidamente insalubre, era vigiada de perto por fiscais que notificavam as irregularidades e davam prazos para resolvê-las.

Depois de um exaustivo esforço para cumprir as exigências da fiscalização, todos estavam confiantes que na próxima inspeção, conquistariam  conceito máximo.

Seu Motta, presidente, CEO e dono da empresa, que dividia o tempo entre a indústria e suas fazendas no Cariri paraibano,  fez questão  de estar presente quando chegassem os temíveis guardiões do bem-estar da classe operária.

Daquela vez, uma turma nova, chefiado por uma jovem senhora.

Pelo jeito,  gente de fora.

O chefe do clã e da empresa familiar decidiu, ele próprio, servir de cicerone no tour  pelos diversos setores da fábrica.

Pensou que havia respondido a todos os questionamentos mas no final da visita,  com o inconfundível sotaque melodioso de carioca, a visitante reclamou de um determinado ambiente.

Persistia o forte odor nauseabundo e para aquilo,  teria de ser encontrada uma solução.

A  agente do governo ficou calada – e deve ter concordado – com a explicação de quem começou na curtição mal saído da infância:

– Minha filha, catinga de couro é como a de furico. Não tem quem tire.

 

Encontro (1924) Lasar Segall – Museu Lesar Segall, São Paulo

 

(Memória olfativa de episódio contado nesta curtição de Território Livre, em 11/05/2019)

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