Congresso desmente Tiririca e mostra que pode ficar pior

Por Vera Magalhães no Globo
Em 2010, o humorista e cantor Tiririca explodiu em votos para deputado federal com um slogan justificando sua decisão de entrar para a política: “Pior do que tá, não fica”. Ele se elegeu, se reelegeu e pode-se dizer que a qualidade do trabalho piorou muito — e o artista que começou sua carreira no circo não pode ser responsabilizado por isso, nem pela profecia errada.
A lambança promovida por deputados e senadores nesta rara semana em que resolveram pegar no batente presencialmente supera, em desfaçatez e ousadia, a malfadada jornada pela aprovação da PEC da Blindagem no ano passado. Supera porque, desta vez, o Senado não se sente pressionado a “corrigir” as decisões escandalosas e participa delas ativamente.
DESENROLA DOS PARTIDOS
Tudo começou com o “Desenrola dos Partidos” iniciado na Câmara em sessão-fantasma, na qual o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), não deu as caras para evitar ligar sua imagem à sua obra.
O conjunto aprovado sob a cínica nomenclatura de reforma eleitoral é um “libera geral” de toda e qualquer tentativa que ainda não havia sido revogada de disciplinar minimamente o uso dos cada vez mais generosos recursos públicos que irrigam os fundos partidário e eleitoral.
O conluio silencioso que levou à inclusão do vale-tudo partidário uniu, e não pela primeira vez em temas dessa natureza corporativista, PT, PL e tudo que está no espectro entre esses dois polos. As exceções ficaram à esquerda e à direita: PSOL e Novo, com suas bancadas diminutas.
REPASSES EM PERÍDO ELEITORAL
Não se passaram dois dias para a segunda paulada desferida pelo Legislativo, com a derrubada dos vetos de Lula a trechos da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 que permitiam repasses e transferências a municípios no período vedado pelas leis Eleitoral e de Responsabilidade Fiscal.
A Lei das Eleições é de 1997 e proíbe repasses voluntários de recursos, inclusive de emendas, nos três meses que antecedem as eleições. Tratava-se de um princípio consagrado até 2022, quando já foi esculhambado pelo governo Bolsonaro com a PEC Kamikaze. Na época, assim como agora, a manobra, considerada inconstitucional dois anos depois pelo STF, teve apoio do PT.
Desta vez, o governo tentou brecar a farra eleitoral, mas o Congresso comandado por Davi Alcolumbre aproveitou a semana em que Brasília está tomada por prefeitos na marcha anual para anunciar sua benesse com dinheiro público. O senador também deverá levar adiante o “libera geral” dos partidos aprovado pela Câmara.
