CONTANDO CRÔNICAS

Fazendo de conta que o aprendiz de cronista domina as operações da aritmética, já terá passado dos 3000, os textículos publicados neste Território Livre.
Sem contar com os repetecos, com avisos póstumos, de tratar-se de material reciclado.
Que enganado, ninguém gosta de tomar café requentado, nem de ouvir miado de lebre.
Levando em conta que não existem escolas para formar cronistas, não se sabe o formato da curva de aprendizagem, quando o pico é atingido e nem mesmo, a duração do processo.
Como em qualquer outra atividade, as dificuldades são maiores no início, depois se equilibram, até o domínio do acochambramento.
Desistências existem, são frequentes e por muitas razões, mas todas têm em comum um ponto de saturação.
O mesmo que ocorreu com certos medicamentos que foram usados sem evidências comprovadas, em estudos duplo-cegos, a experiência pessoal que se acumula, conta.
E tem alguma eficácia.
A frequência diária, (incluídas as segundas-feiras) enquanto a maioria das similares são hebdomadárias ou eventuais, reforça o método do aprender fazendo.
Da dor ao gemido, sempre há tempo para um suspiro.
Na contagem dos ativos e conversão das moedas, o equivalente a mais de 50 anos de publicações semanais.
Este é o balanço parcial de até onde já foi a paciência do respeitável público leitor.
Daqui pra frente, serão outros três milhares.
O jornal O Globo, ao comemorar seus 100 anos faz um precioso registro dos colaboradores que passaram por suas colunas.
Escritores, pensadores, artistas. Todos com pauta livre e autonomia para escrever o que querem e o que der nos telhados.
Como em qualquer negócio, trata-se de processo de compra e venda, dispensada a moeda de troca em papel impresso.
O que se produz é postado no mercado digital, reproduzido em redes sociais, até atingir o consumidor final.
Que pode ler, fazer scroll dinâmica, deletar, curtir ou simplesmente dar um dislike.
Garantido o constitucional direito ao contraditório e aos comentários, sempre acatados.
Elogiosos ou espinafrantes, sempre registrados em cordiais agradecimentos ou réplicas ferinas e raivosas.
A necessária pausa no noticiário árido e o convite à reflexão sobre todo e qualquer assunto, por ângulo desfocado do comum, sempre terá a graciosa companhia da ironia e do quase sarcasmo.
Apesar das líricas, sem um toque de bom humor, não faz o menor sentido ser mais uma, no armazém de secos e molhados.
João Ubaldo Ribeiro, useiro e vezeiro, no gênero e em grau, já alertava:
“Tudo cabe numa crônica. Ela só não pode ser, é chata.”
Axé!



Max Ferguson, é um pintor nascido em 1959, que registra cenas urbanas que desaparecem na cidade de Nova York e arredores
