DENTE DE NETO

Avós modernos participam mais, ajudam os filhos na educação, nas tarefas, no corre-corre e querem desfrutar por mais tempo da companhia dos pequenos.
Hábitos e horários são mudados ao ritmo alucinante dos compromissos de quem antes dos cinco anos, já pratica de três a quatro modalidades esportivas.
Ballet, outras danças, inglês, às vezes, francês. Quando não, mandarim.
O futuro está no oriente.
Ah, não esquecer a robótica.
Que a garotada já se preocupa com quem vai dividir, mais tarde, o trabalho pesado.
Depois da reforma trabalhista, o cuidado vai ser mais com a ferrugem nos technocolaboradores do que com o pagamento do e-social das empreguetes.
– Hoje tive que limpar o banheiro. O R1, o faz-tudo lá de casa, deu pau. Deve ter sido a maresia que oxidou seus sistemas.
Tarefa mais penosa ainda é quando se quer resgatar e manter antigas tradições familiares.
Crente que era pós-graduado em decídua, o vovô de primeira dentição (mas pai de octogésima) tão logo notou o incisivo bambo, ofereceu-se para a exodontia.
Indolor e rápida.
Sem traumas.
Não pareceram assim tão tranquilas as memórias do boticão evocadas pelo fedelho-filho.
Para ele e os irmãos (ouvidos em vídeo-conferência pelo zap zap), aquele papo não passava de propaganda enganosa e conversa pra neto dormir.
Sonhando com o procedimento e fazendo planos para o destino do espécime cirúrgico, é hora de providenciar o armamentário: linha urso 000 (será que ainda vendem no armarinho da esquina?) e uma lãzinha de algodão.
O descarte, estrategicamente planejado.
Nada de jogar no telhado.
Que em edifícios, não há.
Sem essa de fada-madrinha.
Melhor enterrar no pé do mourão da porteira, para virar fazendeiro de muitas terras e boiadas.
Ou quem sabe, fazer como na Turquia. Jogar perto de onde se espera o herdeiro do herdeiro venha trabalhar.
Algum hospital.
Ou na Praça 7, a dos 3 poderes.
Há quem diga que já tem pra vender, álbum como os de figurinhas, para coleção completa.
Quem sabe no futuro, deles não isolem substâncias milagrosas.
As elucubrações só findaram quando chegou a notícia e a operação, gravadas em vídeo.
Inês não vive mais.
O dente já havia sido arrancado.
Pela malvada doutora que se passou por tia.
E ainda vestiu no cliente, roupas, máscara e óculos do Capitão América.
Na próxima vez, vai ser na casa do avô, mesmo.
Com fantasia do Homem de Ferro.

(O texto publicado há seis anos, está no livro “Aprendiz de Avô”, disponível no Kindle)
