15 de fevereiro de 2026
Memória

DOIS RIOS GRANDES, DOIS ARMÁRIOS

O Menino Azul (1770) – Thomas Gainsborough – Biblioteca Huntington, San Marino, California

A torcida do Brasil de Pelotas  já sabia o segredo revelado pelo jovem governador a um surpreso Pedro Bial.

Pelo espanto, só o entrevistador não estava esperando uma conversa tão explosiva.

Está completando  um ano, que a intimidade de um papo de fim de noite,  transbordou para as mídias sociais, em inevitáveis e infames piadinhas, com picos de audiência, encaminhamentos e likes.

E uma enxurrada de mensagens de apoio e reconhecimento pela coragem de quem se apresentava, à época, como pré-candidato à presidência da república, era sinal que estava mesmo na hora de quebrar o tabu.

Outros valores da política não permitiram  o assumido disputar o mais alto cargo da nação, ficando para a eleição pelo governo gaúcho, o referendo da derrubada do mais renitente prejulgamento.

Em tempo de urnas eletrônicas, armário não é mais lugar pra se guardar votos. Nem segredos.

No outro rio grande, uma cidadezinha com dez vezes menos habitantes, também carrega o famigerado preconceito e semelhante motivo para chistes e chacotas.

A estória  de um noviço,  ocorrida há mais de 70 anos, reminiscências passadas aos que vão envelhecendo, é repetida agora para mostrar como a temática já foi tratada.

Nos tempos da ditadura de Vargas, delegados de polícia  eram escolhidos pelos mesmos critérios que aspones continuam sendo hoje em dia.

Pelo  QI  de quem indica.

Um comerciante com fama de correto nos negócios, conduta ilibada e durão, tornou-se o novo responsável pela segurança da progressista cidade.

Tal um talibã, escolheu como prioridade, fazer um  jirad contra homossexuais.

Dizia que a cidade já estava por demais mal afamada,  alhures,  pela sua mocidade alegre.

A estratégia era prender e dar um corretivo  nos mais exibidos e extravagantes.

Certo que só obteria sucesso também com ações preventivas, passou a apreender os  rapazes alegres que exibissem trejeitos afeminados, por mais dissimulados fossem.

Cortar o mal pela raiz, seu lema.

O tratamento precursor da cura gay incluía  longa preleção, corte de cabelos à máquina zero  e devolução pública e ruidosa dos abortados homoafetivos aos pais.

Um dos punidos, contente por genética e natureza, mostrou-se mais animado ainda, enquanto tinha as madeixas tosadas.

Debochado, encarou a autoridade repressora:

Não vejo a hora de ver o senhor raspando a cabeça do seu próprio filho.

No dia seguinte, na capital, o seminário ganhou mais um noviço.

Shirley Temple vestida como o Menino Azul, no filme A Pequena Órfã (1935)

Poucos quadros na história tornaram-se um ícone tão poderoso da identidade de gênero não conformista e da atração pelo mesmo sexo, quanto ‘O Menino Azul’, de Thomas Gainsborough.                       – Matthew Wilson, BBC Culture

 

(O texto contém estória já publicada em 04/04/2019)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *