É tempo de revitalizar a revitalização da Ribeira

Roda Viva – Tribuna do Norte – 12/04/23
O bairro da Ribeira (ribeira no sentido de extensão do rio Potengi – compreendendo uma campina alagada), o mais antigo e o primeiro dotado de toda a infraestrutura urbana na cidade de Natal, depois de 60 anos de decadência, provocada por sua desocupação pelos moradores e, em seguida, pelas repartições públicas, empresas (os bancos foram os últimos), a zona boêmia. Assim vem acontecendo de dois em dois anos com a hipótese de sua revitalização.
Revitalização, de revitalizar, consiste em conferir mais vitalidade ou vigor a uma coisa. Ao revitalizar algo, por conseguinte, é uma forma de lhe dar força, vida ou movimento. Em Natal transformou-se em sinônimo do bairro da Ribeira (parte baixa do bairro) nos últimos de 60 anos, como o desejo do bairro mais antigo renascer.
O bairro da Ribeira, depois de concluir a sua infraestrutura, descobriu que esta não estrava completa. Faltava drenagem, seu maior problema, porque sua localização, abaixo do nível do mar, transformava qualquer chuva numa inundação, literalmente. – Problema que parecia sem solução…
ATÉ INUNDAÇÕES
As inundações periódicas terminaram minando as resistências até dos que insistiam em resistir. Terminada a década dos ´60 o caminho comum foi subir a ladeira transformando a avenida Rio Branco na principal rua do comércio de Natal, enquanto os moradores dos novos bairros de Petrópolis do Tirol, seguindo o “Plano Geral de Sistemalização” desenvolvido a partir do ano de 1929 com o objetivo de criar medidas para que a cidade fosse urbanizada (agora você entenderá o porquê das avenidas natalenses serem largas), o projeto foi concebido pelo arquiteto grego, radicado na Itália, Giácomo Palumbo, que chegou ao Brasil em 1929.
E a Ribeira foi sendo abandonada e esquecida.
Restou o Grande Hotel que não teve forças suficientes para se manter num bairro deserto e terminou sucumbindo também. Ocupante de um prédio do Governo do Estado, este foi devolvido ao proprietário, e está transformado num deposito de processos depois de hospedar algumas repartições do Poder Judiciário.
REVITALIZAR E REVITALIZAR
Ai começou o ciclo das revitalizações. Cada campanha eleitoral o assunto era apresentado, discutido – e quase sempre – debatido. A medida concreta de todos resumiu-se a uma legislação oferecendo isenção de impostos para novas construções no bairro.
Uma dúzia de edifícios forram construídos, compensando a perda de moradores do velho bairro, sem que tivessem efetivamente sido construídos na Ribeira. Acontece que a legislação incluiu a parte alta do bairro, confundindo-se com Petrópolis. E foi lá que que a totalidade dos que buscaram isenção fiscal aplicaram seus investimentos. Se integraram a integralmente a Petrópolis e não usam a Ribeira para nada; nem como passagem.
As outras tentativas ficaram nos debates, reuniões e papel. Muito papel; com diferentes usos.
Agora o exemplo vem da maior cidade do Brasil, que está com toda a região do centro degradada. Lá o processo de degradação começou pelo abandono; as empresas encontraram áreas mais convenientes e atrativas.
Quem saiu por último foram as repartições públicas, tendo como marco a transferência da sede do governo estadual do Palácio dos Campos Elíseos para o Palácio Bandeirantes, no Morumbi, em 1964. Depois disso o centro de São Paulo passou a enfrentar uma outra praga chamada Cracolândia, formada pela escória da sociedade.
UMA PRAGA PAULISTANA
Tudo começou em 1990, na região da Luz, quando aconteceu a primeira apreensão de crack, num contexto de crise econômica no Brasil, o crack se tornou uma droga barata e de efeito muito potente e se espalhou rapidamente. De acordo com a Secretaria de Saúde de São Paulo, ficava concentrada na zona leste, mas a disputa entre os traficantes deslocou o consumo para a região ao lado da Estação da Luz.
O Governador de São Paulo, Tarcísio Freitas, resolveu, agora, enfrentar o problema com intervenção. Ele pretende ocupar os inúmeros imóveis subutilizados. E pretende transferir as repartições estaduais para a atual Cracolândia, começando pelo retorno do Palácio do Governo, além de uma ação de Parcerias tipo Público-Privadas. O plano fala em 56 prédios impactados com o plano de mudança, que deve atingir 18 mil servidores.
A dúvida é conseguir um local para a população degradada.
E AGORA, NATAL
Em recente viagem a Europa, o prefeito Álvaro Dias, assinou o primeiro protocolo de “bairros irmãos” que se tem notícia. A Ribeira de Natal e a Ribeira da cidade do Porto, em Portugal.
Por enquanto este parece ter sido uma típica ação de relações públicos, destacando um dos maiores polos emissores de turistas para Natal, mas, o exemplo de São Paulo bem que poderia inspirar a Revitalização ´2023.
Enquanto a Prefeitura de Natal paga uma fortuna por aluguéis de imóveis, por todos os bairros e sem uma mínima preocupação de estimular outro objetivos.
– Por que não transformar a Ribeira no bairro das repartições públicas municipais?
Afinal, a Revitalização de nossa Ribeira tornou-se uma novela que vem se desenrolando há ´60 anos, sem aparece um único indício de que pode estar se aproximando de um fim.
