16 de junho de 2026
Nota

Encíclica e Eleição 2026: entre a ética, a IA e a reconstrução da política

Por Thiago Medeiros, sociólogo

A campanha eleitoral de 2026 será diferente de todas as anteriores. Pela primeira vez, o Brasil viverá uma disputa nacional profundamente influenciada pela inteligência artificial, pela hiperpersonalização da comunicação e pela velocidade brutal das redes sociais. Nesse cenário, a nova encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, surge não apenas como um documento religioso, mas como um alerta político e civilizacional.

Ao refletir sobre “a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, a encíclica faz um chamado direto para que a tecnologia não substitua a ética, a verdade e a dignidade humana. Em um trecho simbólico, o texto contrapõe duas imagens bíblicas: a Torre de Babel e a reconstrução de Jerusalém. Babel representa o poder sem limites, a uniformização e a ambição desumanizada; Jerusalém simboliza o esforço coletivo, o diálogo e a reconstrução comunitária.

A analogia serve perfeitamente para o ambiente político atual.

A eleição de 2026 corre o risco de se transformar numa “Babel digital”, onde algoritmos substituem debates, narrativas artificiais tomam o lugar da verdade e campanhas passam a disputar atenção em vez de consciência. A IA já consegue criar vídeos hiper-realistas, manipular vozes, produzir discursos personalizados e influenciar emoções em escala industrial. O problema não está na tecnologia em si, mas na ausência de limites éticos para seu uso.

A encíclica é clara ao afirmar que a técnica “não é neutra”, porque carrega os interesses de quem a financia, regula e utiliza. Isso tem impacto direto na política. Afinal, quem controlará os dados, os algoritmos e as plataformas poderá também influenciar percepções, reputações e comportamentos eleitorais.

Mais do que nunca, a democracia dependerá da qualidade moral da comunicação política.

Isso exige campanhas menos baseadas em manipulação emocional e mais conectadas ao bem comum. Exige responsabilidade no uso da inteligência artificial, transparência sobre conteúdos digitais e compromisso com a verdade factual. A encíclica alerta que o verdadeiro risco da era tecnológica é a desumanização: transformar pessoas em números, dados ou instrumentos de desempenho.

No fundo, o debate de 2026 não será apenas entre direita e esquerda, governo e oposição ou continuidade e mudança. Será também uma disputa entre dois modelos de sociedade: uma política construída pela lógica do algoritmo ou uma política guiada pela dignidade humana.

A grande pergunta da próxima eleição talvez seja exatamente essa: queremos campanhas para manipular pessoas ou para reconstruir confiança?

Porque, no fim, nenhuma inteligência artificial conseguirá substituir aquilo que sustenta uma democracia saudável: consciência, ética e humanidade.