Entre a picanha, o posto de saúde e o medo da esquina: o governo Lula e a política da percepção

Por Thiago Medeiros – Sociólogo
A política brasileira tem uma habilidade curiosa: transformar promessas épicas em administrações sobreviventes. A nova pesquisa do instituto Datafolha parece mostrar justamente isso no governo de Luiz Inácio Lula da Silva: uma gestão que ainda não afunda, mas tampouco consegue sair da confortável — ou desconfortável — zona da sobrevivência política.
Segundo o levantamento, segurança pública e saúde lideram as piores avaliações do governo. Segurança aparece no topo do ranking, citada por 16% dos entrevistados; saúde vem logo atrás, com 15%. Economia e combate à corrupção empatam com 13%. Em outras palavras, o cidadão sai de casa preocupado se será assaltado, chega ao posto de saúde torcendo para ser atendido e volta para casa tentando entender por que a inflação parece ignorar qualquer discurso otimista de Brasília.
É quase como se existissem dois governos paralelos: o governo da propaganda e o governo da experiência cotidiana. No primeiro, há anúncios, programas, entregas institucionais, discursos sobre reconstrução nacional e solenidades cuidadosamente produzidas. No segundo, há filas, sensação de insegurança, hospitais lotados e a percepção, cruel para qualquer governante, de que a vida real continua teimosamente resistente à narrativa oficial.
E aqui mora um problema clássico da política: governos frequentemente confundem comunicação com percepção. Não basta dizer que algo melhorou; é preciso que as pessoas sintam que melhorou. Segurança pública, por exemplo, raramente se mede apenas por estatísticas. O eleitor mede pela esquina escura, pelo celular escondido no bolso e pela mensagem no grupo da família alertando sobre mais um assalto no bairro.
Na saúde, o raciocínio é semelhante. Nenhuma campanha publicitária supera a memória de uma consulta adiada, de uma fila longa ou da dificuldade em conseguir atendimento. Política, goste-se ou não, é experiência vivida.
O curioso é que o governo ainda mantém algum fôlego simbólico. Combate à fome e à miséria lidera os aspectos positivos, citado por 13% dos entrevistados, enquanto combate ao desemprego e educação aparecem com 10%. É como se parte do eleitorado dissesse: “há problemas, mas pelo menos alguém está tentando organizar a casa”. Um elogio que soa mais como resignação do que entusiasmo.
Na avaliação geral, o retrato é quase tragicômico: 30% consideram o governo ótimo ou bom, 29% regular e 39% ruim ou péssimo. Traduzindo para o português político: ninguém está exatamente celebrando na varanda, mas também ainda não começou uma revolução na sala de estar.
No fundo, a pesquisa sugere algo desconfortável para o governo: talvez o maior adversário de Lula não seja a oposição, a polarização ou a guerra digital. Talvez seja algo bem mais difícil de combater, a insistência da realidade em interromper o roteiro.
