16 de março de 2026
Memória

INESQUECÍVEIS CÚMPLICES

Francesco Sassetti com seu Neto (1490) – Domenico Ghirlandaio – Museu do Louvre, Paris


Quem tem neto morando longe sabe que só há uma saudade maior.

Aquela que bate depois de  uma visita por poucos dias,  quando se encontra uma pecinha de roupa esquecida por trás de um armário qualquer.

Para a profissão de avô, não se carrega a experiência de um dia também ter sido neto.

Ou os velhos estão demorando mais a envelhecer ou acabamos de presenciar um salto na evolução da humanidade.

Os pequenos são mais desinibidos, ou as recomendações dos pais foram abrandadas e revogadas as regras de não importunação dos frágeis velhinhos.

Não faz muito tempo que passou a vigorar a lei, pode tudo na casa da avó.

Os setentões, trocaram os fundos das redes pelos volantes e estão sempre dispostos a preencher as lacunas nas escalas dos responsáveis pelo leva e traz dos futuros campeões olímpicos em tantas modalidades que praticam.

Como a  convivência plantada hoje será  colhida no futuro, só os infantes poderão dizer.

Nas recordações que vão se perdendo, não ficarão mais lembranças de roupas costuradas com carinho nem bordados transformados em obras de arte.

Restarão as memórias gustativas sem as aventuras  antes  das delícias que iam ao forno.                                      De ajudar a pegar, no galinheiro do fundo do quintal, a ex-poedeira,  para o sacrifício dominical.

Quem, menor ainda na primeira década de vida, sob influência dos astros da eletrônica, haverá de acreditar que o avô, médico, costumava receber de presente da clientela vinda do interior, víveres que davam pra abastecer uma bodega.

E que alguns exageravam na generosidade, traduzida em perus e até pais-de-chiqueiro.

E ninguém pagava mico nem recebia o selo de qualidade cringe.

Estórias dos tempos que o leite não vinha das tetas das caixas tetrapack e deixavam boiando nas superfícies das xícaras uma gosma, tipo slime que chamavam de nata.

Não é difícil imaginar o que as novas gerações irão contar para os que virão.

Muito mais do que aprenderam, o que ensinaram.

Como foram indispensáveis quando os nonos trocavam de telefone.

Quantas vezes tiveram de repetir para quem estava sempre confuso com o emaranhado da tecnologia sem fios.

Quando sentirem falta dos cúmplices, lembrarão como era fácil levar os grampas na conversa?

A fome seletiva da neta, daquelas que só passam à base de guloseimas, apareceu logo cedo, às sete da matina, na volta do comparsa da caminhada com os outros parceiros de outro bando.

Foi só um teste para marcar o imite até onde poderiam ir as trangressões que  os 67 anos de diferença de idade permitem?

Vovô, não dia ao pai que você me deu pirulito a essa hora. Ele vai  ficar brabo com você.

São Jerônimo em seu Estudo (1480) – Domenico Ghirlandaio – Chiesa di Ognissanti, Igreja de São Salvador em Todos os Santos, Florença

(Publicado há quatro anos, este texto faz parte do livro Aprendiz de Avô, disponível no Kindle)

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