14 de fevereiro de 2026
Justiça

IUSTITIA ET MISERICORDIA

Mulher Velha com um Rosário (1896) – Paul Cézanne – Galeria Nacional de Londres


Tudo começou quando grupos de amigas
  que trocavam receitas de pontos de crochê, se enturmaram com a geração mais jovem das tias do zap, nas portas dos quartéis.

Novas amizades aumentadas em reuniões depois do mormaço, na boquinha da noite, para a romaria em intenção de todos os santos que livrassem o país do comunismo ateu e as famílias, da destruição pagã.

Todo dia, um hábito, e até  naqueles em que os desbotados guarda-sóis aposentados do insalubre trabalho nos veraneios, não resistiam às chuvas que fechavam a primavera.

Fizeram do segundo lar, quarto arrumado dos netos que já haviam descoberto outras delícias e camas mais macias, longe das velhas casas resistentes às invasões dos exércitos de corretores imobiliários.

Cafezinho trazido nas térmicas das novas coleguinhas, esquentavam as discussões políticas.

Nossa bandeira jamais será vermelha.

Notícias bombásticas, desertadas por cima dos muros insensíveis, no dia seguinte já estavam juntas com as frutas apodrecidas, e jogadas no mesmo lixo.

Disciplina como a que enxergavam de longe, nas ordens e respostas varonis dos bravos oficiais e  soldados preparados para qualquer guerra.

O desânimo nunca chegava, mesmo que o tempo continuasse com pressa,  a espera  do aceno, e a senha tão sonhada: ordinário, marche.

Decepções acumuladas, silêncio de quem se fez surdo aos pedidos de socorro e insensível aos cantos entoados com tanto amor, pela pátria de todos.

A última cartada, na longa viagem até o acampamento federal.

O último ato, simbólico, de tomada pacífica dos três poderes, fora do controle por gente estranha, travestida de patriota.

Recolhidas entre os escombros, amargaram horas de tortura drive-thru, num pau-de-arara midiático, armado nos ônibus da ditadura judiciária; sede e fome, sem direitos, nem mesmo o da privacidade sanitária.

Na humilhação do cárcere improvisado, não deixavam de pensar o que lhes reservava o futuro, em arrastados processos, divisão da pensões com advogados e a certeza que o final da história só restaria para sempre gravado na bandeira que tanto amavam.

Independência ou Morte

Os Três Crânios (1898) – Paul Cézzane – Instituto de Arte de Detroit, EUA

Notas do Redator

1. Este texto foi publicado há dois anos com o título: Salvem Nossas Forças Armadas

2. Presa há dois anos por ter escrito, com batom, na estátua da Justiça, uma frase imortalizada pelo Ministro Luís Roberto Barroso, a cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, de 39 anos, mãe de dois filhos menores, teve o quarto pedido de mudança de regime, para prisão domiciliar, negado pelo Ministro Alexandre de Moraes.

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“Onde não há Caridade não pode haver Justiça”       Santo Agostinho

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