MAGIA DE REIS

O anúncio que o pagamento da gratificação natalina dos funcionários estaduais só será concluído no dia 10 de janeiro, não causou revoltas.
Há três anos, o espírito da estação festiva já havia resistido, enquanto as ondas da pandemia e o medo se espalhavam na maré vazante da cepa Ômicron.
A militância continuou contida.
Não se ouvem apitaços.
Nenhum sindicato armou barraco na frente da Governadoria.
Os combativos líderes classistas parecem satisfeitos com o agendamento fatiado.
Pra não dizer que não existem reclamações, um ou outro muxoxo de blogueiro com outros patrocínios.
Mesmo ordem judicial não é cumprida, sob disfarce de pedido de socorro a algum desembargador amigo.
Parece até que o repetido adiamento, por poucos dias, tem significado que vai muito além dos aspectos econômicos e da circulação do dinheiro.
É um desvio cultural que o primeiro governo feminino de origem popular, está tendo a coragem de enfrentar na sesmaria potiguar.
Já era mesmo tempo de conceder aposentadorias compulsórias a certos mitos, alheios às nossas mais enraizadas tradições.
Alguém teria de tomar uma atitude corajosa contra tanto consumismo.
Não bastasse a black friday dilapidar os empréstimos consignados, seria temerário deixar que o crédito fácil avançasse também sobre o décimo-terceiro salário. Tudo por conta da balela de uma lenda escandinava.
O tempo está dando razão à governante com visão de futuro.
Imagine o desperdício, se nos primeiros anos da sua dobrada administração, tivesse investido recursos e esforços em alguns setores.
Qual a serventia do Teatro Alberto Maranhão, se os espetáculos estavam proibidos?
Quem precisava de biblioteca, com aulas suspensas desde antes do primeiro decreto de emergência da pandemia, pela rotineira greve de todo ano letivo?
Não fazia sentido a quadrigentésima reforma do Forte dos Reis Magos, se os turistas não apareciam.
Depois da tormenta, chegou a hora do combate sistemático às imitações pseudoculturais e de serem retomadas nossas melhores tradições judaico-cristãs.
Tempo de esquecer certos símbolos que nunca foram nossos.
Não sendo burras, as renas não se adaptaram ao seminário.
Os trenós não resistem às estradas esburacadas, e não dá para trafegar somente na rodovia pedagiada da Pipa.
Santa Claus, de saco cheio deste nosso calor infernal, prefere obedecer a um imaginário lockdown ainda não revogado na Lapônia.
Não dá nem para imitarmos os portugueses, que trocam as prendas no dia 6 de janeiro.
Assim fica difícil resgatar a cultura de um povo.
O resto, é folclore.
Gaspar, Belchior e Baltazar foram guiados por uma estrela.
A nossa, vermelha, continua atrasada.
Feliz Dia de Reis e Próspero Ano Novo em 2027.

(O texto, publicado em 17/12/2021, foi atualizado)
