15 de dezembro de 2025
Memória

MENTIRA A GALOPE

Aldemir Martins (1990)


Desde que o
Supremo Tribunal Federal elegeu o tema como prioridade, paira entre gotículas de aerossóis, no ar perigoso, uma grande dúvida.

É possível chegar à origem de uma notícia falsa, ou toda ela tem fundo,  frente e verso de verdade?

Uma piada de médico residente, num hospital de subúrbio carioca, antes do boom das redes sociais, que chegou aos noticiários de maior audiência e às páginas dos maiores jornais do país, pode ser um bom exemplo de um making of de uma fake news de verdade.

O anglicismo demorou quase  duas décadas para virar verbete e ser incorporado às conversas de botequim.                         

Agora, não se contesta uma notícia, sem recorrer à macaqueada expressão.

Quem  precisa esclarecer algum fato nebuloso, fugir de  assunto desagradável e até esconder o óbvio, simples assim.

É só carimbar o rótulo de fake news e bola pra frente.

O presidente Trump foi quem mais utilizou o termo para se livrar de tudo que era disparado em direção a seu alvo e topete.

No assunto, é  bambambã e maestro.  Um Tom Brady.

Das brejeiras eleitorais com os russos, às revelações picantes das pistoleiras de vida fácil, com o colete de teflon, peitou a mídia, pagou todas acusações com notas de três dólares e só renovou o contrato de aluguel da Casa Branca, quatro anos depois, por conta de  fraudes eleitorais, mesmo que  nunca provadas.

No Brasil, chegou pra ficar na boca do povo.

Atende pelo nick. Fake para os íntimos.

Os conterrâneos que chamam os gentios de paraíbas, são doutores no assunto.

Soltam uma verde e ficam esperando a volta.

Em cores de Amadóvar. Ou do arco-íris.

Um médico em treinamento do Hospital de Bonsucesso, cansado de explicar à clientela que o exame de tomografia (quando ainda novidade) não se aplicava a todos os casos e a ninguém curava, recebeu um pedido insistente de uma baleia (obesa mórbida, para os corretos anti-bullying).

Sem outro argumento melhor para a negativa, disse que no caso dela, pelo volume, somente o aparelho de um hospital da Gávea podia realizar o exame.

O encaminhamento virou prática.

De início, como brincadeira de mau gosto.

Depois, com  a chegada de novos calouros que não sabiam da missa a metade, a conduta falseada continuou a ser repetida.

E foi longe.

Até sair no RJ TV.

Para acabar  em nota oficial do Jockey Clube, nos jornalões Globo e JB.

O sodalício dedicado a corridas equestres e apostas,  pedia encarecidamente que não mais o procurassem para exames médicos

Por motivo muito simples.

Seu hospital tratava animais de quatro patas. Equinos.

Olhe lá, muares e asininos.

E nunca teve um tomógrafo.

Era assim que galopava uma falsa notícia no começo deste século.

Baleia – Aldemir Martins (1922-2006)

(Este páreo foi corrido originalmente em  4/8/2019)

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