Modelo Medellín em Felipe Camarão? Quarta fase do Território Seguro é alvo de questionamentos

Diante das dificuldades para avançar com projetos de segurança pública no Congresso, o Governo Federal decidiu investir em uma estratégia administrativa para enfrentar o crime organizado: o programa Território Seguro. Implantada em outubro de 2025 no bairro Felipe Camarão, em Natal (RN), a iniciativa do Ministério da Justiça combina repressão qualificada com ações sociais, com a promessa de se tornar modelo nacional.
Os primeiros resultados apresentados pelo governo são expressivos. Desde o início das operações, 181 pessoas foram presas, mais de 2,3 toneladas de drogas e 31 armas foram apreendidas, gerando um prejuízo estimado de R$ 94,3 milhões às facções criminosas.
Segundo a Diretoria de Operações Integradas e de Inteligência (Diopi), responsável pelo programa, o custo federal foi de R$ 2,7 milhões — o que representaria, de acordo com o diretor Rodney da Silva, um impacto de R$ 34,70 no crime organizado para cada real investido. As ações ocorreram sem registro de mortes.
Felipe Camarão foi escolhido como projeto-piloto por concentrar disputas territoriais entre o Comando Vermelho e o Sindicato do Crime do Rio Grande do Norte. A definição da área e do modelo de intervenção teve como base estudo da USP, coordenado pelo professor Leandro Piquet Carneiro.

O programa foi estruturado em cinco fases: diagnóstico, planejamento estratégico, operações policiais integradas, sustentação social e, por fim, avaliação e replicação do modelo. A terceira etapa, marcada pelas prisões e apreensões, consolidou a presença do Estado no território.
Desde dezembro, o projeto entrou na quarta fase — considerada pelo governo como o ponto central da proposta. É a etapa de “cidadania”, voltada à reocupação social e econômica da área após a intervenção policial. A ideia é articular políticas públicas que vão além da segurança, incluindo geração de renda, estímulo ao empreendedorismo e possível oferta de microcrédito, com apoio de instituições como o BNDES.
Para especialistas envolvidos na concepção do programa, como o advogado Pierpaolo Bottini, é justamente essa integração intersetorial que pode diferenciar o Território Seguro de experiências anteriores, como as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro.
No entanto, a implementação da fase social tem gerado controvérsias.
O urbanista social e membro do Conselho da Cidade de Natal, Jefferson Lucio, avalia que a etapa ainda é “tímida” e carece de maior mobilização comunitária. Ele compara o momento atual à experiência de Medellín, na Colômbia, frequentemente citada como referência internacional por combinar segurança com forte participação social e investimentos urbanos estruturantes.
“A fase de operações foi muito boa. Mas agora a parte da cidadania está obscura, falta transparência sobre o que está sendo feito e como”, afirma Lucio.
A crítica central é que, sem engajamento efetivo da comunidade e políticas estruturantes visíveis, o risco é que os resultados obtidos com a repressão policial não se sustentem no longo prazo. O desafio do Território Seguro, portanto, passa a ser transformar a presença do Estado em oportunidades concretas para a população local — condição considerada decisiva para que o modelo se consolide e possa, de fato, ser replicado em outras regiões do país.
Fonte: Valor
