Napoleão e o cavaleiro fidalgo

O ENGENHOSO FIDALGO
(…)
Vem no horizonte
Entre a noite e o sol
O Cavaleiro da Triste Figura
Sob a carga da fantasia, da lança
Das rédeas, do mundo
Nem se lembra de dormir e comer.
Os de casa maldizem: ‘de tanto
leer se le secou el cerebro’.
Enlouquecer pra sair por aí
Dizendo umas verdades…
Fiel à Dulcinéia de Toboso
A quem não vê, nunca viu…
Mas para amá-la não é preciso
Vê-la ou tê-la, apenas imaginá-la
– Meu senhor, são moinhos de vento, não são gigantes!
– Que história é essa, Sancho?
Só piso na babugem da realidade
– Amo meu, não é fácil às vezes
Separar sonho e chão
– Delirar ficou para lunáticos…
Que na ‘certa perderam o senso’
– Não preciso despertar pra saber
O que passa sob o céu na vastidão
– Sonho em ver os seus olhos
Um aberto, o outro fechado, ao menos
– Soltem o leão, senhores, avalio
Esfolá-lo sem mais demora!
O bicho pula, esturra, cai fora da jaula
Mas dá-lhe as costas e adormece
– Oh covarde! Isto o que é -grita
O cavaleiro brandindo a espada
– Tenho, Senhor, meus nervos
Em frangalhos! A continuar assim baterei em retirada
– Cala-te, escudeiro infiel, minhas
Mãos não combatem se têm dúvida
– Por muita dúvida é que
Alguém sai de casa
E não acha o caminho de volta!
E a Sancho diz, decidido: de vitórias, cansei!
Dulci m’espera com amor e sabão
Logo, a armadura de lata aperta,
Levanta a lança, o ar aperta
A Rocinante espora e pegam a reta.
***
TEXTO: Napoleão Veras
[do livro ‘E por acaso deliro’]
DESENHO: Pablo Picasso
