NETOS DA PANDEMIA

Para quem já teve a graça e a ventura de ser avô, a flexibilização das medidas restritivas era o ato institucional mais esperado de todos decretados pelos prepostos e feitores do vírus-rei.
A segunda dose foi a senha para ser ativada somente depois de torturante delay de mais 14 dias.
A retomada dos contatos imediatos em todos os graus, abraços e apertos, seria a prova que o sistema imunológico afetivo havia sido restaurado.
O tempo das visitas em drive thru, entre calçadas e vidros levantados, vai virando lembranças, guardadas no mesmo baú, juntos com as chamadas de vídeo e o laudo do exame atestando anosmia.
Do cheirinho que só eles têm quando suados no desperdício das energias, nas mesmas terras encantadas desbravadas, não faz muito, pelos pais.
A prova maior que o novo normal também já estava começado para os vovôs-babões foi o habeas corpus e salvo-conduto para pernoite no território livre da casa da vó.
Estudos observacionais ainda não consolidados em trabalhos mais consistentes e confiáveis, davam conta que o retorno às antigas condições de normalidade afetiva, era definitivo.
Tendo de debitar dos restos a viver, um precioso tempo que parecia interminável, a compensação dos momentos perdidos encontra-se em reconstrução acelerada.
Os retornados também já não eram mais os mesmos.
A equação, peso corporal ao ser carregado nos braços ou no cavalinho nos ombros já não era igual à força dos músculos mais envelhecidos pela inatividade e ordens de fechamento das academias e estúdios de pilates.
Deve ter ocorrido alguma mudança no código penal da família, com revogação de cláusulas pétreas e proibições no campo da alimentação pouco saudável e lazer viciante.
Combos de sanduíches, fritas e refrigerantes foram liberados desde que solicitados pelo aplicativo iFood.
Para espanto dos antigos advogados de defesa dos pequenos gulosos insaciáveis, até sorvete (sem glúten) estava presente no menu delivery. Sem derreter nem deixar de deixar manchas no sofá.
O fornecimento de smartphones e seus logins, como em passe de mágica psicopedagógica, desapareceu do rol das atividades permitidas somente por poucos minutos e sob atenta supervisão.
Orgulhosos, os ex-comparsas nas contravenções dos jogos eletrônicos, mostraram as armas liberadas e deram conta da descriminalização do consumo recreacional de internet.
Os tablets tomaram o lugar e papel de livros e cadernos e dividem com as tias-professoras, aulas virtuais e atenção.
Criaturas e objetos eletrônicos são agora inseparáveis. Quem não enfrentar desafios e não se esforçar pra ser um brawl de verdade e mentirinha, não participa dos melhores games.
Vai a dica: não precisa entender os objetivos e sequências de sons, alertas e tilts.
Basta manter pressionados os botões virtuais. Uma hora, você recebe, do parceiro, o maior de todos os elogios.
– Valeu, brother!

(Publicação original em 31/05/21)

