13 de dezembro de 2025
Memória

NOTÍCIA – SEM JEITO – DE UM CORPO NA RUA

Morte no Quarto da Doente (1895) – Edvar Munch – Galeria Nacional, Oslo

 

Por uma boa piada, perdem-se amigos.

No humor bem dosado, até os assuntos mais evitados, os últimos tabus, podem ser abordados com graça e leveza.

O segredo é que os terríveis fatos relatados não tenham alcançado, o digamos assim, êxito final.

Em conversas entre parceiros, qualquer maneira  de falar, vale o riso e a galhofa. E sempre haverá troco.

Até quando uma boa notícia, parece a pior de todas.

Foi o que ocorreu na  caminhada matinal, que entre outros benefícios à vitalidade, fortalece os oito  músculos da língua.

Mas não tem a menor graça quando solitária e silente.

Gregária, vira grupo de terapia e ajuda mútua.                                        

Não há catálogo melhor para encontrar um encanador, médico, ou eletricista de confiança. Ainda que persista uma certa deficiência na indicação de marceneiros que cumpram os prazos acertados.

Seus trending topics  mudam de posição com o calendário eleitoral, operações da PF, separações litigiosas, separações dos mansos e tabelas dos campeonatos de futebol.

Na hora de puxar assunto, há  ainda quem sinta falta da Coluna de Jairo Procópio.

Notícias de doenças, internações e mortes, têm prioridade.

Naquele dia, o bonde já ia andando em velocidade de cruzeiro quando chegou um retardatário, pegando a missa já depois do ofertório.

O assunto era a saúde de um ausente.

Não deu pra entender se o que se falava era sobre sua falta parcial ou total.

Que ninguém dá notícia de quem dela goza.

Com tantos facultativos, a conversa, em tom de consternação, era recheada de termos técnicos.

Com intimidade, tomos, cineangios, cats, stents…

Sem saber o desfecho que naquelas alturas, devia ter sido anunciado adrede, arriscou perguntar pelo paciente.

Ou pelo de cujus.

A resposta foi de cortar o coração.

O corpo do amigo estava na Rua São José.

A pergunta seguinte deixou todos surpresos.                       

Se as últimas homenagens já estavam sendo prestadas no Centro de Velório.

Antes que as lágrimas de saudade e prenúncio começassem a brotar e todos os defeitos do finado anistiados, o caso foi devidamente esclarecido.

O corpo do pranteado estava realmente na Rua São José.

Na UTI da Promater.                

E passava bem.                          

Já de alta, pronto pra receber visitas no apartamento.

 

 

Operários a caminho de casa (1914)- Edvar Munch – Museu Munch, Oslo

(Texto original publicado em 1/08/2019)

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